A expectativa de vida em Cuba, segundo a Organização Mundial de Saúde, beira os 80 anos (79,1), acima da taxa brasileira, que está em 75 anos, e da média mundial, 71,4 anos. Penso na hipótese de que um reforço na qualidade de vida da população pode vir da oferta de alimentos orgânicos, já que entre gerontólogos há consenso de que a longevidade ativa está ligada a fatores como alimentação e ambiente saudáveis, atividades fÃsica e cultural, motivação e saúde. No paÃs, legumes, frutas e verduras são plantados sem defensivos agrÃcolas.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Sacos plásticos, guardanapos de papel e canudos são produtos que só estão disponÃveis em locais que atendem turistas. Nas padarias, os pães e biscoitos são entregues diretamente nas mãos dos compradores
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Veja o que já enviamosNas feiras, encontramos batatas, cebolas e abacaxis de tamanhos menores do que aqueles produzidos com o uso de agrotóxicos. Isso, porém, não se deve a uma consciência ecológica â ou pelo menos não aparentemente -, mas à falta de disponibilidade desses produtos. Mesmo nas plantações de tabaco, um dos principais produtos do paÃs, os fungicidas são naturais e feitos a partir das folhas de fumo.
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Numa perspectiva semelhante, sacos plásticos, guardanapos de papel e canudos são produtos que só estão disponÃveis em locais que atendem turistas. Nas padarias, os pães e biscoitos são entregues diretamente nas mãos dos compradores. Nos supermercados, cada pessoa leva sua sacola de compras, e na frente das feiras e mercados hortifrutigranjeiros, vêem-se pessoas vendendo sacos plásticos. Muitas janelas e varandas exibem varais de sacos lavados para serem reutilizados, numa clara indicação da raridade desse produto.
A escassez de sacos plásticos e o não uso de agrotóxicos, que poderiam ser interpretados como resultados da preocupação com a sustentabilidade, são, na verdade, indÃcios da luta contÃnua de um paÃs com dificuldades econômicas. Embora o acesso à educação, saúde, cultura e esportes seja amplo, percebe-se o esforço da população, de um modo geral, para superar uma condição que não é exclusiva de Cuba, mas partilhada com o restante do Caribe: recursos escassos.
Não é, porém, um quadro de miséria. Os mercados estatais que visitei em minha primeira ida a Havana não estavam desabastecidos. O que se percebe, ao contrário de qualquer supermercado brasileiro, é que não existe variedade de marcas, só de tipos ou modelos. Há enlatados espanhóis (em tamanhos extra grande) e biscoitos brasileiros. Aliás, não se vê propagandas de marcas pela cidade, nem outdoors anunciando produtos. Os que vemos são mensagens polÃticas. Nas lojas mais antigas de Habana Vieja, não existem letreiros â os nomes das casas comerciais estão gravados na soleira da entrada.
O Estado fornece alguns alimentos básicos, por meio de uma “caderneta de abastecimento”. Atualmente, um cubano adulto recebe, por mês, aproximadamente três quilos de arroz, dois de açúcar, meio litro de óleo de soja, um pacote de café misturado, um pacote de massa, cinco ovos e pequena quantidade de frango. Crianças de até sete anos têm direito a um litro diário de leite. No perÃodo em que estivemos em Cuba, logo após o furacão Irma, faltavam papel higiênico e ovos nas lojas, já que as granjas teriam sido destruÃdas. Mas era possÃvel comprá-los no mercado negro.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Como saÃda para a crise, Cuba se abriu ao capital estrangeiro, permitindo que empresas de outros paÃses passassem a controlar até 49% das ações dos hotéis
[/g1_quote]O mercado negro é uma herança do chamado perÃodo especial, iniciado com a queda do muro de Berlim e o final da União Soviética, que durou até meados dos anos 2000. A aliança com o bloco soviético havia possibilitado a Cuba o desenvolvimento de um estado de bem-estar social, ao mesmo tempo em que a economia se mantinha em funcionamento. A União Soviética comprava o açúcar cubano em troca de petróleo, com um desconto de 20 a 30%. Com isso, o paÃs, cuja economia estava baseada na monocultura açucareira, chegou até a exportar petróleo.
Mas o fim da URSS ocasionou uma queda de 35% do PIB em apenas três anos, de 1991 a 1993, fazendo com que Cuba entrasse num perÃodo de fome, escassez de alimentos, desvalorização dos salários, paralisação dos transportes, apagões de energia. Em busca da sobrevivência, a população recorria a pequenos negócios ilegais â desde criar porcos dentro das casas nas cidades até instalar âgatosâ para captar sinal de televisão dos Estados Unidos, passando por comercializar produtos furtados do Estado. Ainda se vêem traços dessa época, por exemplo, nos portões de ferro instalados na entrada dos imóveis â no perÃodo especial, as pessoas, desesperadas, invadiam as moradias para pegar o que encontrassem para comer.
Como saÃda para a crise, Cuba se abriu ao capital estrangeiro, permitindo que empresas de outros paÃses passassem a controlar até 49% das ações dos hotéis. Também nessa época, foi criado o sistema de moeda dupla: o peso comum (CUP), usado para pagar salários e obter produtos e serviços básicos, e o peso conversÃvel (CUC), empregado no turismo e no comércio de produtos não subvencionados. O CUP vale em torno de 24 CUCs. Os cubanos não têm acesso ao peso conversÃvel e os turistas não compram CUPs nas casas de câmbio do Estado, as Cadecas.
