Os Ãndios vão ocupar BrasÃlia. Eles começaram a sair de suas aldeias no começo da semana. São mais de 150 lideranças indÃgenas que chegam, nesta quarta-feira (16 de agosto), para protestar dentro e fora do Supremo Tribunal Federal (STF) – alguns lÃderes já têm assento marcado no plenário da casa. Se a palavra Ãndio nem sempre atrai empatia, imagine somar a ela o complemento protesto. Para muitos, Ãndio é um assunto chato. E é com esse desinteresse e indiferença que contam os ruralistas, bancada que ajudou Michel Temer chegar ao poder e, posteriormente, contribuiu para arquivar a denúncia de corrupção passiva contra o presidente. O retorno para suas terras terá um gostinho de vitória.
A corte rejeitou por unanimidade  as ações do governo de Mato Grosso que exigiam indenizações da União por ela ter supostamente demarcado áreas do Parque IndÃgena do Xingu e dos povos Nambikwara e Pareci. Na véspera da votação, foi retirada de pauta a decisão acerca da Terra IndÃgena Ventarra (RS). O temor era que a decisão do Supremo pudesse gerar consequências para as demarcações de terras indÃgenas em todo o paÃs. Como o ministro Dias Toffoli foi obrigado a se ausentar devido problemas de saúde, a votação sobre a demarcação das terras dos quilombolas também não chegou a ocorrer. Mas e daÃ?, deve estar se perguntando quem chegou até aqui na matéria.  Afinal, o que a vida deles, Ãndios e quilombolas, tem a ver com a nossa, moradores dos grandes centros urbanos? A resposta é curta e grossa: tudo.
Imagine o Brasil sem Ãndios. São eles os principais guardiões da floresta, ou da biodiversidade. As terras indÃgenas evitam o desmatamento e, consequentemente, ajudam a conter as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), responsáveis pelo aquecimento global. Dados da Coalizão do Clima, Florestas e Agricultura apontam que, em todo o mundo, 24% do carbono estocado no solo estão em terras sob gestão de comunidades tradicionais. No Brasil, as terras indÃgenas têm o potencial de evitar a emissão de 31,8 milhões de toneladas anuais de CO2, o equivalente a retirar de circulação cerca de 6,7 milhões de carros pelo perÃodo de um ano, segundo estudos do World Resources Institute (WRI).
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Veja o que já enviamosO STF decidiu que, em nenhum momento, essas terras passaram ao Estado do Mato Grosso e que não é possÃvel ignorar a presença dos Ãndios
[/g1_quote]Ainda segundo diagnóstico da Coalizão, é cada vez mais claro que, sem as terras indÃgenas, haverá um risco grande de secas prolongadas e altas temperaturas, em especial, na região Amazônica. O setor mais afetado, neste caso, seria o próprio agronegócio – segmento econômico especialmente interessado na aprovação das ações no STF. E essa mudança no clima em função de perda de massa florestal preservada já é uma realidade. Segundo estudos cientÃficos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o desmatamento acumulado em uma das três regiões afetadas pela decisão do STF, o Parque IndÃgena do Xingu, nos últimos anos, fez com que a temperatura na região subisse assustadoramente. Nas áreas abertas ao redor do Parque a temperatura é, em média, 4°C a 6°C maior do que no interior do território indÃgena. A situação não é pior devido à existência do parque. Temperaturas elevadas afetam o regime de chuvas, trazendo potenciais danos à produção agrÃcola da região.
Enquanto os povos indÃgenas estão preocupados com o risco de o STF adotar a tese do marco temporal no julgamento de hoje, segundo a qual os indÃgenas só teriam direito à s terras que estavam sob sua posse em 1988, na data da promulgação da Constituição Federal, os ruralistas – eufemismo para o agronegócio – contam com essa vitória. Na batalha travada no Supremo, os indÃgenas saÃram vitoriosos. A guerra, no entanto, continua. âO STF decidiu que, em nenhum momento, essas terras passaram ao Estado do Mato Grosso e que não é possÃvel ignorar a presença dos Ãndiosâ, comemorou, ao final do julgamento, LuÃs Enrique Eloy, indÃgena Terena e advogado da Articulação dos Povos IndÃgenas do Brasil (Apib). Com a decisão, a tese do marco temporal sequer foi discutida.
Um dia antes da votação, a liderança da Terra IndÃgena Yvy Katu/Porto Lindo, Leila Rocha Guarani Nhandeva, chegou a afirmar que, se fosse preciso, se ajoelharia na frente da ministra Cármen Lúcia para pedir pela não aprovação do marco temporal. Não foi preciso. Caso ele viesse a ser debatido, os Guarani e Kaiowá estariam entre os povos que seriam especialmente atingidos pela decisão da Corte.
O marco temporal e a PEC 215 são as principais armas nessa guerra em curso. Uma complementa a outra. Enquanto a primeira fala em definir uma data; a outra prega transferir do Executivo para o Legislativo, ou seja, para o Congresso Nacional, a palavra final sobre a demarcação das terras indÃgenas, territórios quilombolas e unidades de conversação.  A indiferença generalizada em relação à luta dos povos indÃgenas associada à desinformação são aliadas fundamentais para enfraquecer o movimento e jogá-los na invisibilidade.
Estudo do Instituto Socioambiental (ISA) – que lançou uma campanha alertando sobre o racismo contra os povos indÃgenas – calcula que essas medidas podem impactar diretamente os processos de demarcação de 228 Terras IndÃgenas (TIs) que ainda não foram homologados, os quais devem ser paralisados. Essas terras representam uma área de 7.807.539 hectares, com uma população de 107.203 indÃgenas.
O assunto já foi denunciado à ONU e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Em abaixo assinado, entidades encaminharem à  Relatora Especial das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos IndÃgenas, Victoria Tauli-Corpuz, e ao Embaixador Presidente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, JoaquÃn Alexander Maza Martelli, denúncia contra o governo brasileiro, acusando-o de violar direitos dos povos indÃgenas e também dos quilombolas. Lutar contra a PEC 215 e o marco temporal não é só defender a causa dos Ãndios e, muito menos, ser altruÃsta. à defender nossa própria sobrevivência, evitando assim crises hÃdricas, secas prolongadas e epidemias provocadas por desequilÃbrio ambiental.
