A maldição do #prontofalei

Tem gente que faz qualquer coisa para conseguir um like no Facebook. Foto Josh Edelson/AFP

Publicar por impulso pode ser uma ameaça muito maior do que você imagina

Por Elis Monteiro | ODS 15Vida Sustentável • Publicada em 1 de janeiro de 2017 - 09:06 • Atualizada em 2 de setembro de 2017 - 23:41

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Tem gente que faz qualquer coisa para conseguir um like no Facebook. Foto Josh Edelson/AFP
Tem gente que faz qualquer coisa para conseguir um like no Facebook. Foto Josh Edelson/AFP
Tem gente que faz qualquer coisa para conseguir um like no Facebook. Foto Josh Edelson/AFP

Faz mais de doze anos que Mark Zuckerberg apresentou ao mundo sua grande invenção: o Facebook nascia no longínquo ano de 2004. É isso mesmo: há mais de uma década a gente convive com o “Face” e até hoje ainda há quem o considere uma novidade. Pior: continua utilizando uma mídia pública como se fosse o quintal de casa – ou, em alguns casos, a privada doméstica. É o que eu carinhosamente apelidei de “a pegadinha do prontofalei”. É que é tudo muito fácil e sedutor: pela primeira vez, temos à nossa disposição um espaço público, ilimitado, de graça, para falar com todo mundo o que se pensa, o tempo todo. Sem maiores consequências.

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Segundo neurocientistas da Universidade da Califórnia, que estudaram a relação entre a popularidade de posts e as respostas cerebrais de internautas, conferir o número de curtidas nas suas postagens estimula o cérebro com a mesma força que coisas (comprovadamente) prazerosas, como ganhar dinheiro e comer chocolate

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Mais ou menos. O preço a se pagar pelo “agrado” de Mark Z. é alto e teremos que arcar com os custos dele por toda a nossa vida. Sempre digo aos meus alunos que se os usuários tivessem a exata noção do que pode ser a consequência de cada #prontofalei, a linha do tempo de todos com certeza estaria menos poluída. Pare um segundo para pensar: se você conseguisse seguir o seu post, até onde acha que ele chegaria? Seu chefe vai ler? E se o recrutador daquela vaga que você almeja tiver acesso ao que você, num arroubo de inocência, vomitou?

Fale a verdade: quantas foram as vezes em que você publicou qualquer coisa sem nem mesmo pensar antes? É irresistível meter o bedelho em tudo, confessar o inconfessável e buscar autoafirmação com a concordância alheia – ou achar boas polêmicas com discordâncias “saudáveis”. É como se estivéssemos numa boa mesa de bar, na qual se fala de um tudo.

“Ah, mas eu não tô nem aí. O espaço existe e eu quero mais é ocupá-lo! Quero ter o direito de escrever o que eu quiser, sobre o que eu bem entender, na hora que eu julgar apropriada”, você pode estar pensando. Como diria o sábio Cumpadi Washington, sabe de nada, inocente! O problema é que o “no que você está pensando” acaba sendo levado ao pé da letra e a ironia que você pensou raramente é compreendida pelos interlocutores. É mais ou menos como se você saísse pela rua gritando as verdades entaladas na sua garganta, usando um megafone, e cada um ouvisse de um jeito, usando sua própria interpretação. Com o pouco (ou nenhum) conhecimento que tem de você.

O conselho é: na dúvida, não publique. Porque, amigo, vou logo tocar a real para você: não só os RHs estão de olho; os futuros empregadores costumam fuçar as redes dos candidatos em busca de “prontofalei” mal colocado. O lance é que o #prontofalei de hoje pode ser a fechada de portas de amanhã. Ainda mais porque, tirando Elon Musk*, ninguém é capaz de prever o futuro.

Para quem só consegue acreditar nos fatos, vamos a alguns deles: teve o caso de um professor de geografia da rede pública de ensino do Rio de Janeiro que foi demitido por falar mal do prefeito em redes. De acordo com o processo administrativo, o docente manteve “condutas reprováveis nas redes sociais, consistentes em dirigir ofensas indignas, palavras de baixo calão, entre outras coisas, ao prefeito da cidade do Rio de Janeiro e à secretária de Educação”.

Teve o funcionário de uma loja de carros que resolveu abrir o verbo contra o gerente em sua timeline. E foi demitido também.

Em 2015, uma segurada que estava brigando na Justiça contra o INSS para conseguir auxílio-doença por depressão postou uma foto em seu Facebook em uma cachoeira usando a seguinte legenda: “Não estou me aguentando de tanta felicidade”. Segundo a Advocacia Geral da União (AGU), que é quem representa o INSS em processos, peritos médicos judiciais podem avaliar – de forma subjetiva e ainda bem controversa – se uma pessoa está ou não “deprimida”. O resultado da foto foi o cancelamento do benefício.

Isso tudo aí parece bizarro, mas basta uma olhadinha na nossa timeline para perceber que o pessoal perdeu definitivamente a linha. O famoso #prontofalei virou ferramenta de desabafo, mas o feitiço pode virar contra o feiticeiro: ao mesmo tempo em que cresce a confiança dos usuários e aumenta a coragem de opinar sobre tudo, aumenta a vigilância das empresas em busca de escorregões dos funcionários – atuais e futuros.

Um caso recente muito curioso foi o do jogador Getterson, que viria do J. Malucelli (PR), clube de Curitiba que disputa a Série D do Campeonato Brasileiro, para o São Paulo. Depois de descobrir “postagens incompatíveis” do rapaz no Twitter, o clube paulista anunciou, em nota oficial, que tomou a decisão de não contratá-lo mais. O motivo? Nas postagens, realizadas entre 2011 e 2012, Getterson se declarou corintiano e debochou do São Paulo, ao chamá-lo de “bambi”.

Mas por que cargas d´água estamos nos expondo tanto e a troco de quê? Por que temos a necessidade de postar sobre tudo, oferecendo fartos pitacos sobre os mais variados temas, quando na maior parte das vezes nem temos opinião sobre os assuntos?

Manifestantes de extrema-direita na Polônia protestam contra o Facebook. Foto Mateusz Wlodarczyk/NurPhoto

Uma coisa é certa: o #prontofalei costuma ser imperioso e difícil de deter.

Antes que tentem opinar sobre isso também, a ciência dá uma explicação para o fenômeno: segundo neurocientistas da Universidade da Califórnia, que estudaram a relação entre a popularidade de posts e as respostas cerebrais de internautas, conferir o número de curtidas nas suas postagens estimula o cérebro com a mesma força que coisas (comprovadamente) prazerosas, como ganhar dinheiro e comer chocolate.

O padrão observado pelos cientistas foi: quando uma postagem recebia mais curtidas, uma região específica do cérebro chamada núcleo accumbens se destacava no exame. Tal ponto é o mesmo ativado quando comemos doces ou quando praticamos exercícios físicos: é a tal sensação de recompensa.

Taí. Já há pelo menos uma desculpa científica para a sua obsessão por postagens. Mas é preciso ficar de olho: uma pitada de bom senso pode ser o remédio para o vício de apertar o botão de enviar. Não custa lembrar que o que publicamos hoje estará marcado em nossa pegada digital e pode ser cobrado amanhã.

*Elon Musk é um empreendedor e filantropo sul-africano que tem sido comparado a Steve Jobs. Fundou, dentre outras empresas, a PayPal, a Space X e a Tesla Motors. É considerado, hoje, um dos mais visionários empreendedores do planeta.

Elis Monteiro

É consultora e professora de Marketing Digital da Fundação
Getulio Vargas (FGV), do Instituto Europeu de Design (IED) e da Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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