Faz mais de doze anos que Mark Zuckerberg apresentou ao mundo sua grande invenção: o Facebook nascia no longÃnquo ano de 2004. à isso mesmo: há mais de uma década a gente convive com o âFaceâ e até hoje ainda há quem o considere uma novidade. Pior: continua utilizando uma mÃdia pública como se fosse o quintal de casa â ou, em alguns casos, a privada doméstica. à o que eu carinhosamente apelidei de âa pegadinha do prontofaleiâ. à que é tudo muito fácil e sedutor: pela primeira vez, temos à nossa disposição um espaço público, ilimitado, de graça, para falar com todo mundo o que se pensa, o tempo todo. Sem maiores consequências.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Segundo neurocientistas da Universidade da Califórnia, que estudaram a relação entre a popularidade de posts e as respostas cerebrais de internautas, conferir o número de curtidas nas suas postagens estimula o cérebro com a mesma força que coisas (comprovadamente) prazerosas, como ganhar dinheiro e comer chocolate
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Veja o que já enviamosMais ou menos. O preço a se pagar pelo âagradoâ de Mark Z. é alto e teremos que arcar com os custos dele por toda a nossa vida. Sempre digo aos meus alunos que se os usuários tivessem a exata noção do que pode ser a consequência de cada #prontofalei, a linha do tempo de todos com certeza estaria menos poluÃda. Pare um segundo para pensar: se você conseguisse seguir o seu post, até onde acha que ele chegaria? Seu chefe vai ler? E se o recrutador daquela vaga que você almeja tiver acesso ao que você, num arroubo de inocência, vomitou?
Fale a verdade: quantas foram as vezes em que você publicou qualquer coisa sem nem mesmo pensar antes? à irresistÃvel meter o bedelho em tudo, confessar o inconfessável e buscar autoafirmação com a concordância alheia â ou achar boas polêmicas com discordâncias âsaudáveisâ. à como se estivéssemos numa boa mesa de bar, na qual se fala de um tudo.
âAh, mas eu não tô nem aÃ. O espaço existe e eu quero mais é ocupá-lo! Quero ter o direito de escrever o que eu quiser, sobre o que eu bem entender, na hora que eu julgar apropriadaâ, você pode estar pensando. Como diria o sábio Cumpadi Washington, sabe de nada, inocente! O problema é que o âno que você está pensandoâ acaba sendo levado ao pé da letra e a ironia que você pensou raramente é compreendida pelos interlocutores. à mais ou menos como se você saÃsse pela rua gritando as verdades entaladas na sua garganta, usando um megafone, e cada um ouvisse de um jeito, usando sua própria interpretação. Com o pouco (ou nenhum) conhecimento que tem de você.
O conselho é: na dúvida, não publique. Porque, amigo, vou logo tocar a real para você: não só os RHs estão de olho; os futuros empregadores costumam fuçar as redes dos candidatos em busca de âprontofaleiâ mal colocado. O lance é que o #prontofalei de hoje pode ser a fechada de portas de amanhã. Ainda mais porque, tirando Elon Musk*, ninguém é capaz de prever o futuro.
Para quem só consegue acreditar nos fatos, vamos a alguns deles: teve o caso de um professor de geografia da rede pública de ensino do Rio de Janeiro que foi demitido por falar mal do prefeito em redes. De acordo com o processo administrativo, o docente manteve âcondutas reprováveis nas redes sociais, consistentes em dirigir ofensas indignas, palavras de baixo calão, entre outras coisas, ao prefeito da cidade do Rio de Janeiro e à secretária de Educaçãoâ.
Teve o funcionário de uma loja de carros que resolveu abrir o verbo contra o gerente em sua timeline. E foi demitido também.
Em 2015, uma segurada que estava brigando na Justiça contra o INSS para conseguir auxÃlio-doença por depressão postou uma foto em seu Facebook em uma cachoeira usando a seguinte legenda: âNão estou me aguentando de tanta felicidadeâ. Segundo a Advocacia Geral da União (AGU), que é quem representa o INSS em processos, peritos médicos judiciais podem avaliar â de forma subjetiva e ainda bem controversa â se uma pessoa está ou não âdeprimidaâ. O resultado da foto foi o cancelamento do benefÃcio.
Isso tudo aà parece bizarro, mas basta uma olhadinha na nossa timeline para perceber que o pessoal perdeu definitivamente a linha. O famoso #prontofalei virou ferramenta de desabafo, mas o feitiço pode virar contra o feiticeiro: ao mesmo tempo em que cresce a confiança dos usuários e aumenta a coragem de opinar sobre tudo, aumenta a vigilância das empresas em busca de escorregões dos funcionários â atuais e futuros.
Um caso recente muito curioso foi o do jogador Getterson, que viria do J. Malucelli (PR), clube de Curitiba que disputa a Série D do Campeonato Brasileiro, para o São Paulo. Depois de descobrir âpostagens incompatÃveisâ do rapaz no Twitter, o clube paulista anunciou, em nota oficial, que tomou a decisão de não contratá-lo mais. O motivo? Nas postagens, realizadas entre 2011 e 2012, Getterson se declarou corintiano e debochou do São Paulo, ao chamá-lo de “bambi”.
Mas por que cargas d´água estamos nos expondo tanto e a troco de quê? Por que temos a necessidade de postar sobre tudo, oferecendo fartos pitacos sobre os mais variados temas, quando na maior parte das vezes nem temos opinião sobre os assuntos?
Uma coisa é certa: o #prontofalei costuma ser imperioso e difÃcil de deter.
Antes que tentem opinar sobre isso também, a ciência dá uma explicação para o fenômeno: segundo neurocientistas da Universidade da Califórnia, que estudaram a relação entre a popularidade de posts e as respostas cerebrais de internautas, conferir o número de curtidas nas suas postagens estimula o cérebro com a mesma força que coisas (comprovadamente) prazerosas, como ganhar dinheiro e comer chocolate.
O padrão observado pelos cientistas foi: quando uma postagem recebia mais curtidas, uma região especÃfica do cérebro chamada núcleo accumbens se destacava no exame. Tal ponto é o mesmo ativado quando comemos doces ou quando praticamos exercÃcios fÃsicos: é a tal sensação de recompensa.
TaÃ. Já há pelo menos uma desculpa cientÃfica para a sua obsessão por postagens. Mas é preciso ficar de olho: uma pitada de bom senso pode ser o remédio para o vÃcio de apertar o botão de enviar. Não custa lembrar que o que publicamos hoje estará marcado em nossa pegada digital e pode ser cobrado amanhã.
*Elon Musk é um empreendedor e filantropo sul-africano que tem sido comparado a Steve Jobs. Fundou, dentre outras empresas, a PayPal, a Space X e a Tesla Motors. à considerado, hoje, um dos mais visionários empreendedores do planeta.
