[g1_quote author_name=”Valdomiro Lents Pereira” author_description=”Pescador” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
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Veja o que já enviamosOs botos ajudam a gente na pescaria. Quando mostram de bico ou de lado, é peixe na certa. Não tem como o cara errar.
[/g1_quote]Logo, logo, o primeiro boto coloca seu dorso para fora da superfÃcie. A aparição quebra o marasmo e dá lugar a um alvoroço: os pescadores correm na direção do mamÃfero, que já se embala em outros movimentos. à hora de lançar as redes. âOs botos ajudam a gente na pescaria. Quando mostram de bico ou de lado, é peixe na certa. Não tem como o cara errarâ, garante o pescador Valdomiro Lents Pereira.
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Parece uma dança ensaiada. E é. Há mais de 25 anos, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do Grupo de Estudos de MamÃferos Aquáticos do Rio Grande do Sul (GEMARS) estudam a interação entre pescadores artesanais e o Tursiops truncatus nos estuários de Laguna (SC) e Imbé/Tramandaà (RS). Apesar de a espécie ser encontrada na maior parte dos mares ao redor do globo, o fenômeno que ficou conhecido como pesca cooperativa é único: só acontece numa extensão de 300 km no litoral sul brasileiro.
Ninguém sabe ao certo quando essa parceria entre botos e humanos começou. Nos jornais antigos de Laguna, notÃcias indicam que no fim do século XIX ou inÃcio do XX a prática já ocorria por ali. No entanto, ela só foi parar nos anais da ciência na década de 1990, pelas mãos do biólogo Paulo César Simões-Lopes, professor da UFSC e coordenador do Laboratório de MamÃferos Aquáticos (Lamaq) da universidade.
[g1_quote author_name=”Paulo Cesar Simões-Lopes” author_description=”Biólogo e professor da UFSC” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Nós chamamos de pesca cooperativa. Enquanto os pescadores nunca teriam as tainhas agrupadas, os botos nunca as teriam confusas em fuga. à uma ideia de partilha de recursos e economia de energia durante a pesca.
[/g1_quote]Filho de Porto Alegre, Simões-Lopes passou infância e adolescência indo à casa de praia que a famÃlia tinha em Imbé, a apenas 100 km da capital gaúcha. Nas tardes de sol, observava e achava interessante a intimidade entre os pescadores e os mamÃferos marinhos. Mas naquele momento, não passou de curiosidade. Quando terminou a graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1984, arrumou as malas e se mudou para Santa Catarina. Parecia que o destino lhe empurrava de volta para aquela história: ali, acontecia exatamente o mesmo fenômeno que ele cansou de assistir no estado natal.
âEu cresci vendo esse evento. E mais tarde descobri que era considerado raro e desconhecido pela ciênciaâ, diz. Foi quando resolveu transformar curiosidade em estudo. Queria entender se aquilo era bom â e para quem. Em geral, a interação entre mamÃferos marinhos e pescadores é conflituosa. E o caso parecia ser uma exceção. âNa época eu já sabia que aquela interação era incomum. Só havia registros de algo parecido na Austrália e na costa africana. Mas nos dois lugares isso não existia mais, então no Brasil era algo que não podia ser perdidoâ.
Quando decidiu mergulhar na história, Simões-Lopes dava aula em uma escola e administrava uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) na serra catarinense. Todo tempo livre que tinha, se jogava para o litoral. Vivia entre a montanha e o mar. âEu estava o tempo todo me movendo, tentando conciliar as coisas: trabalhar, ganhar a vida e fazer pesquisaâ.
Começou a reunir interessados para lhe ajudar em campo, e tirava dinheiro do próprio bolso para tocar a empreitada. Até que o negócio foi ganhando corpo e virou sua pesquisa de doutorado na PontifÃcia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). O que começou como um esforço pessoal se tornou o primeiro registro cientÃfico do comportamento daquela espécie na relação com os pescadores da região. Um trabalho que nasceu com mais de mil horas de observação em campo.
Tanto tempo na cola dos mamÃferos permitiu a Simões-Lopes entender algumas coisas. Ele percebeu, por exemplo, que a população de botos que participa da interação é pequena e residente. Ou seja, são sempre os mesmos indivÃduos que aparecem na desembocadura entre mar e rio. E reconheceu que, quando pescam juntos, há vantagens tanto para os humanos como para o Tursiops truncatus. Daà a denominação de âpesca cooperativaâ: os botos encurralam os cardumes de tainha, os pescadores lançam as tarrafas e os peixes que conseguem escapar da rede ficam desnorteados, virando presa fácil também para os botos. âEnquanto os pescadores nunca teriam as tainhas agrupadas, os botos nunca as teriam confusas em fuga. à uma ideia de partilha de recursos e economia de energia durante a pescaâ, explica Simões-Lopes.
[g1_quote author_name=”Valdomiro Pereira” author_description=”Pescador” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Não é chegar, abrir e jogar a tarrafa. Tem que observar bem o jogo, a pose, o movimento deles. Isso não se aprende em escola, mas observando os mais velhos.
[/g1_quote]Os estudos do gaúcho abriram a porteira para que outros pesquisadores olhassem para o assunto. No inÃcio, umas das pessoas que topou entrar na dança foi o biólogo Paulo Ott. Quando Simões-Lopes começou a ir para a praia de binóculos, câmera fotográfica e prancheta, Ott ainda cursava a faculdade na UFRGS, em Porto Alegre. Na época, havia pouquÃssima gente estudando mamÃferos marinhos no Brasil, e quase ninguém no litoral norte do Rio Grande do Sul. Com o objetivo de fazer um levantamento das espécies e identificar os principais problemas de conservação dos mamÃferos marinhos na região, o estudante começou a percorrer a costa com amigos para tapar esse buraco. âÃramos uma gurizada quando começamosâ, diz o gaúcho.
O grupo coletava animais mortos encalhados nas praias, colocava-os no porta-malas do carro e estendia os corpos no quintal de casa, para estudá-los. No inÃcio, eles nem conheciam todas as espécies que encontravam pelo caminho. Mas logo começaram a gerar dados e serem chamados para participar de congressos. Foi num desses eventos cientÃficos, no inÃcio da década de 1990, que Ott conheceu Simões-Lopes. Ficou sabendo da pesquisa de doutorado com os botos e se voluntariou para ajudar. âEra uma chance de acompanhá-lo nas saÃdas de campo em Imbé e ver como ele fazia. Foi um aprendizado mesmoâ, diz o pesquisador, que hoje é professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e presidente do GEMARS â ONG que nasceu daquele grupo de estudantes.
Com câmeras precárias, começaram a fotografar e catalogar os botos para saber quantos eram e com que frequência apareciam no estuário que dividia os municÃpios de Tramandaà e Imbé. Mesmo com equipamentos meia-boca, conseguiram conhecer os animais e perceber a importância socioeconômica e cultural que tinham por ali. Não à toa, os mamÃferos são tratados como velhos amigos: Coquinho, Catatau e Geraldona são alguns dos nomes que os pescadores deram aos companheiros de pesca. âA gente sabe os nomes dos botos todosâ, diz o pescador Valdomiro Pereira. âPara nós, eles são como um irmãoâ.
Pereira é sobrinho de Pavão, um dos pescadores mais antigos da região. Os dois praticamente nasceram com a tarrafa na mão. âNasci e criei aqui na areia. Comecei a pescar com quatro anos, ajudando o paiâ, conta Pavão. Ele diz que aprender o traquejo dos botos não é coisa de um dia: é para quem está há anos enfiando a canela na água gelada. âNão é chegar, abrir e jogar a tarrafa. Tem que observar bem o jogo, a pose, o movimento deles. Isso não se aprende em escola, mas observando os mais velhosâ, afirma.
O conhecimento é passado de geração em geração. E não só entre os pescadores. âPara os botos é a mesma coisa. As mães com seus filhotes são o canal de passagem dessa tradição. Sabemos que não são todos os botos daqui da região que interagem com a pesca. à uma técnica que tem que ser aprendida e que tem um certo custo, tipo falar uma lÃngua estrangeira: tem indivÃduos que investem e outros nãoâ, explica Simões-Lopes.
Não se sabe exatamente como a tradição começou entre os animais. Mas há algumas hipóteses. âProvavelmente, um grupo ou um indivÃduo começou a interação com pescadores e percebeu ali um benefÃcio ecológico na obtenção de recursos. E sua capacidade cognitiva e comportamental possibilitou que a prática fosse compartilhada com outros indivÃduosâ, ensina o biólogo Fábio Daura, que divide a coordenação do Lamaq com Simões-Lopes. Desde 2007, ele dá continuidade, em Santa Catarina, à s pesquisas iniciadas na década de 1990 sobre o assunto.
Não foram apenas os pescadores que aprenderam a identificar o boto. Os bichos também perceberam que a presença do pescador os auxilia na captura dos peixes. âMuitas vezes, os botos encurralam as tainhas exatamente onde os pescadores estão, e realizam um comportamento caracterÃstico, como um sinal para lançar as tarrafasâ, afirma Paulo Ott. Com os olhos voltados para a água, Valdomiro Pereira confirma: âOs botos sabem quem são os pescadores mais velhos e os mais novos. Eu chego aqui e parece que eles já sentem o cara até no pisar. Já vêm para mostrar o peixe para nósâ, conta. âA inteligência do boto é a inteligência de uma pessoaâ.
O resultado dessa parceria é sentido quando se puxa a tarrafa para a areia. Os pescadores pegam peixes maiores e em maior quantidade se comparado com a pesca artesanal praticada sem o auxÃlio dos botos. A conservação da espécie, portanto, é algo que interessa não só à ciência, mas à própria comunidade que vive dessa atividade.
As ameaças à s populações de botos que participam da pesca cooperativa, no entanto, são cada vez maiores. E vêm de vários lados: âTem alteração de habitat, perturbação sonora que leva a estresse, péssima qualidade de água… Isso tudo está acontecendo, e ao mesmo tempoâ, Fábio Daura sinaliza.
[g1_quote author_name=”Fábio Daura” author_description=”Biólogo” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Provavelmente, um grupo ou um indivÃduo começou a interação com pescadores e percebeu ali um benefÃcio ecológico na obtenção de recursos. E sua capacidade cognitiva e comportamental possibilitou que a prática fosse compartilhada com outros indivÃduos.
[/g1_quote]Por essas e outras, em 2014 a população costeira de botos, incluindo os animais que interagem no estuário de Tramandaà e Imbé, passou a constar como âvulnerávelâ na lista vermelha de fauna ameaçada do Rio Grande do Sul. âEmbora o número exato de indivÃduos não seja conhecido, a população parece ser relativamente pequena e ocupa uma faixa bastante estreita do litoralâ, explica Ott. Como existe um forte componente de aprendizado envolvido nessa interação entre botos e pescadores, há um receio dos pesquisadores de que se estes animais desaparecerem, talvez a pesca cooperativa não se estabeleça novamente.
Com tantos dados nas mãos, a academia tenta munir o poder público com informações para incentivar polÃticas públicas e iniciativas de conservação para mudar esse cenário. âà fácil criar justificativas para manejar o ambiente de forma adequada. Mas é preciso uma mobilização que vá além das universidadesâ, defende Daura. Para ele, a exclusividade do fenômeno pode ser usada como uma estratégica bandeira que traz vantagens não só para a espécie, mas também para a região. âA pesca cooperativa gera uma renda complementar importante para os pescadores. Mas ela tem potencial de gerar muito mais, pois tem atrativos turÃsticos e de educação fantásticos, além de poder agregar valor ao produto da pesca. Muitas coisas podem ser pensadas para aumentar o benefÃcio econômico local através de uma motivação social e culturalâ, diz.
Enquanto as iniciativas não ganham corpo pelo lado do poder público, os pesquisadores seguem fazendo sua lição para a proteção dos botos. âHoje, conservação tem que ser o objetivo de todo mundo que trabalha com ciência da biologiaâ, acredita Simões-Lopes. âAfinal, todo mundo tem advogado, menos os bichos e as plantasâ. O Tursiops truncatus talvez seja uma exceção: pelas areias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, um batalhão de pescadores faz o papel de guardião. âSe tem turista perturbando o boto eu já prego uma mentira para ele e digo que tem polÃcia filmandoâ, diz Pavão. âA gente vai protegendo os bichos dessa maneira, porque eles são nossos parceirõesâ.
E é tanto na vida quanto na morte. Alguns anos atrás, Lobisomem, um dos mais antigos botos que deslizava pelo rio TramandaÃ, acabou morrendo e foi encontrado encalhado na praia de Imbé. Era um dos preferidos entre os tarrafeiros. Os pesquisadores levaram o corpo para a universidade a fim de estudá-lo. Um pescador bateu à porta do laboratório, entrou com seu filho e parou ao lado do mamÃfero sem vida. âOlha aÃ, filho: esse era meu companheiro de pescaâ, disse com os olhos cheios de lágrimas. E se despediu do amigo.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]30/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse perÃodo, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.
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Matéria muito boa, estimulante. Raro pensarmos nesta relação de cooperação tão explÃcita quanto a um objetivo comum. Mais comum conhecermos histórias de benefÃcio mútuo, mas não desta forma. Formidável pela possibilidade de ampliar o olhar para este aspecto da relação com o ambiente. Parabéns!!!!