Apesar de a Itália estar mergulhada numa recessão econômica que parece não ter fim, o serviço de proteção a menores em situação de risco não vê crise e recebe do governo mais de 1,5 bilhão de euros por ano. Seria justo se atrás da tutela de indefesos não se escondesse uma obscura rede de interesses econômicos que envolve abrigos privados, serviços sociais e tribunais de menores, uma rede que encontrou nas falhas do sistema um modo nada ético de fazer dinheiro.
[g1_quote author_name=”Francesco Morcavallo” author_description=”Advogado” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Essa é uma rede criminosa e sem escrúpulos que faz negócios em cima da pele de menores
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Veja o que já enviamosAtualmente, 30 mil menores â 1600 têm menos de 6 anos de idade â vivem em cerca 1800 estruturas de acolhimento espalhadas por todo o paÃs. São crianças e adolescentes que, por motivos muitas vezes questionáveis, são afastados de suas famÃlias e permanecem em média três anos esperando para voltar ao lar. Algumas dessas estruturas, num escandaloso conflito de interesses, são administradas por juÃzes que atuam em tribunais de menores. Um tribunal de menores é composto por quatro magistrados: dois juÃzes concursados e dois juÃzes honorários, estes últimos não precisam ter formação em direito, podem ser professores, psicólogos e educadores, mas possuem o mesmo poder do juiz concursado. E aà está o problema: quem julga é o mesmo que acolhe.
Segundo uma pesquisa feita pela organização Finalmente Liberi, dos mil juÃzes honorários que atuam em tribunais de menores, 200 são ligados à estruturas de acolhimento, são diretores ou prestam serviço como psicólogos, educadores ou assistentes sociais, o que é proibido. Tanto é que existe uma circular do Conselho Superior da Magistratura (CSM) que diz que o juiz honorário deve se comprometer a não assumir durante o perÃodo de atuação como magistrado nenhum cargo em estruturas para menores. âO problema é que quem deveria controlar não o fazâ, diz Cristina Franceschini, advogada e presidente da organização.
Essas estruturas â que podem ser casas-lares, comunidades educativas ou terapêuticas â recebem por dia, do governo, de 70 a 400 euros pela tutela de cada menor. Uma quantidade enorme de dinheiro público que gira livremente, sem controle, visto que são associações sem fins lucrativos e não precisam apresentar um balanço detalhado das despesas. âQuatrocentos euros por dia é o que deve custar o Hotel Danieli, em Venezaâ, diz Franceschini, referindo-se ao hotel cinco estrelas mais famoso da laguna, que fica ao lado da Praça de São Marcos. Para ela o valor das diárias, muitas vezes, não é justificado. âNo caso das comunidades terapêuticas, por exemplo, na maioria das vezes falta um projeto educativo e pessoas especializadas para enfrentar certos tipos de patologiaâ.
[g1_quote author_name=”Cristina Franceschini” author_description=”Advogada” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Quatrocentos euros por dia é o que deve custar o Hotel Danieli, em Veneza
[/g1_quote]Segundo a advogada, o valor pago à s estruturas poderia ser destinado a famÃlias que passam por dificuldade financeira para que possam construir um projeto alternativo ao afastamento. âA internação deveria ser a última soluçãoâ, diz. Para Franceschini, menores só deveriam ser afastados de suas famÃlias em casos de violência doméstica e abuso, mas não é bem isso o que acontece. Segundo dados do Ministério do Trabalho e PolÃtica Social, que realizou em 2012 o primeiro e único balanço sobre a realidade das crianças afastadas temporariamente de suas famÃlias de origem: 37% dos menores foram afastados de seus genitores por inadequação (44% dos casos são relativos a problemas econômicos); 9%, por problemas de dependência de um ou ambos os genitores; 8%, por problemas de relação familiar; 7%, por maus-tratos e abandono; e 6%, por problemas de saúde de um dos genitores.
Na prática, os dados do governo revelam que 37% dos 30 mil menores que se encontram em estruturas poderiam estar com suas famÃlias se tivessem tido uma alternativa, como uma ajuda econômica. Mas ir ao serviço social pedir ajuda pode ser o inÃcio de um calvário. Isso porque, segundo Franceshini, âquando uma famÃlia passa por dificuldade econômica e pede ajuda ao serviço social, o sistema entra em estado de alerta e já prevê uma possÃvel intervenção. Se precisam de ajuda para pagar contas pode significar que os filhos passem frio e isso não pode acontecerâ, diz a advogada.
Pode até parecer absurdo o exemplo dado pela advogada. Mas casos sem explicação lógica de afastamento de menores ocupam as manchetes dos jornais italianos. Uma famÃlia viu os três filhos (13 anos, 21 meses e 6 meses de idade) serem colocados numa comunidade porque a casa onde viviam era desorganizada e suja. O que, segundo o serviço social, é sinônimo de negligência da parte dos pais.
Sem controle
O caminho para abrir uma estrutura é relativamente fácil, visto que grande parte dos documentos produzidos são autocertificações fornecidas pelo próprio interessado, nesse caso, o próprio abrigo. E mesmo que ainda não tenha obtido o credenciamento oficial da região, na espera, a estrutura já pode começar a trabalhar. Mas para entender o que realmente acontece dentro desses locais é necessário que o Estado os acompanhe, o que nem sempre ocorre, ou por falta de pessoal ou de verba. âNa verdade, não falta dinheiro, o problema é como ele é investidoâ, diz a advogada.
Franceshini faz uma reflexão. âOs genitores são obrigados a passar por testes psicológicos para comprovar a capacidade de cuidarem de seus filhos, já os educadores que trabalham em comunidades não passam por nenhum exame. Tanto é assim que se veem constantemente casos de abuso e violência dentro dessas estruturasâ, diz. O caso mais recente aconteceu na cidade de Licata, em Agrigento, onde menores com problemas psÃquicos foram encontrados acorrentados e eram obrigados a comer as próprias fezes.
Francesco Morcavallo, que atuou quatro anos como juiz no Tribunal de Menores de Bolonha, percebeu o quanto facilmente menores eram mandados para as estruturas. Ele chegou a denunciar o esquema, foi transferido para outro tribunal e, no final, desapontado com o andamento da justiça, resolveu deixar a magistratura e defender quem ele sempre considerou vÃtima nessa história toda.
âEssa é uma rede criminosa e sem escrúpulos que faz negócios em cima da pele de menoresâ, diz. Essa rede possui vários tentáculos e um deles é a gestão escolar dos menores que vivem em abrigos. Segundo o ex-juiz, muitas das estruturas, principalmente aquelas religiosas, são administradas por pessoas ou entidades que também administram escolas particulares. âO menor quando é afastado de sua famÃlia, muda de escola e passa a frequentar uma próxima à estrutura onde vive. Coincidência ou não, o menor é colocado na escola que é administrada por quem administra o obrigo onde viveâ, diz Morcavallo. âEssas entidades deveriam ser não lucrativas, porém o dinheiro é dividido entre elas.â
Morcavallo aponta para outro dado: muitas vezes os menores são levados de modo coercitivo e traumático. Como aconteceu em Padova, em 2012, quando um menino de 10 anos de idade foi retirado da escola pela polÃcia e carregado à força para dentro da viatura. Toda essa violência praticada na frente dos amigos da escola e dos professores. Uma tia, que estava presente no momento da retirada coercitiva, filmou o ocorrido, o choro do menino e seu pedido de ajuda à avó. O motivo do afastamento era a separação dos pais.
Outro caso mais recente aconteceu dia 16 deste mês, quando uma professora interrompeu a lição e disse a Carlo: âVenha, por favor, alguns senhores precisam falar com vocêâ. Do lado de fora o aguardavam o serviço social e a polÃcia. Assim como no caso descrito acima, Carlo também tem somente 10 anos de idade. Segundo relatos, foram momentos de choro e angústia. Só que dessa vez não havia celulares para registrar o ocorrido.
A Corte Europeia pelos Direitos Humanos condenou o governo italiano, em outubro de 2015, por violação do Artigo 8 da Convenção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais, relativo à proteção da vida privada e da famÃlia. O caso referia-se a três filhos que foram afastados de seus pais por problemas econômicos e depressão de um deles e que foram colocados para adoção. Quem defendeu a famÃlia e apresentou o recurso na Corte de Estrasburgo foi Morcavallo. Segundo o advogado, além da Corte de Estrasburgo, âexistem outras entidades, como embaixadas, que estão organizando-se para combater essa rede criminosaâ.
De fato, ao perceber o alto número de menores equatorianos envolvidos em casos de afastamento, a Embaixada do Equador, em Roma, a pedido do presidente Rafael Correa, instituiu um grupo de advogados para não somente dar orientação jurÃdica, mas entrar com processos na justiça italiana a pedido de genitores para reaverem seus filhos. São quatro escritórios de advocacia espalhados pelo paÃs. Graças à ajuda fornecida pela embaixada, 10 dos 78 menores equatorianos afastados do convÃvio familiar voltaram para os braços da famÃlia. Já o Consulado do Brasil fornece orientação jurÃdica a brasileiros e acompanha o andamento de alguns casos, mas não presta assistência legal.
Linda, a menina brasileira que corre risco de ser afastada de seus genitores
 O amor de uma mãe é incomensurável, dizem. No caso de Antônia* é bem mais que isso. Antônia é uma brasileira que vive na Itália há anos e que, com o italiano Paolo*, teve uma filha, Linda*, que hoje está com 2 anos de idade. A famÃlia humilde levava uma vida tranquila, até que oito meses atrás eles viram a felicidade se despedaçar. Linda sofreu um acidente doméstico, se afogou na pequena piscina de plástico que tanto amava brincar. Mas Linda é forte e sobreviveu, porém, as sequelas daquele acidente ficaram para o resto da vida. Hoje vive em estado semivegetativo em uma cama de um hospital pediátrico que fica na periferia de Roma. Apesar de tudo, a menina ainda sorri e chora quando percebe que a mãe está para se ausentar por um instante.
E foi nesse quarto frio de hospital que Antônia ouviu a médica responsável por Linda falar que a menina teria alta antes do Natal e que, se a famÃlia não encontrasse uma casa idônea, Linda seria mandada para uma comunidade terapêutica. O pânico tomou conta da famÃlia. O casal se mudou temporariamente para o prédio de uma Fundação Assistencial que fica ao lado do hospital. Desde que ouviu essa conversa da médica e foi questionada sobre essa possibilidade com a assistente social do hospital, Antônia e Paolo não tiveram mais paz.
Mas que diabos significa uma casa idônea? Para o serviço social quer dizer um ambiente de 50 a 100 metros quadrados, com cômodos grandes, um quarto só para Linda, saÃda de emergência, luz contÃnua (visto que Linda precisa estar conectada a aparelhos elétricos), sem mofo, que seja em bairro próximo a um hospital e que seja no andar térreo. O fato é que o aluguel de uma casa assim não sai por menos de 1200 euros por mês e a famÃlia não tem condições de arcar com tamanha despesa.
Na época do acidente a famÃlia morava na casa de um amigo e, quando tudo aconteceu, se mudou para a casa dos pais de Paolo. O casal apresentou três alternativas de residência ao serviço social de Roma, mas nenhuma delas, por razões diversas, era idônea. Indagada pela reportagem do porquê da recusa das três casas, a assistente social da capital romana que cuida do caso explicou que uma era longe, outra não havia luz contÃnua e a terceira, que era a casa dos pais do Paolo, era pequena e havia muita gente morando lá. No meio da conversa, ela soltou uma frase desconcertante: âPara mim pouco importa o que pensa a mãe, o que interessa é somente a tutela da meninaâ.
Antônia, diante da pergunta se não seria melhor Linda ser transferida em uma estrutura, pois receberia os cuidados necessários, reage: âNão, a minha filha tem que ficar comigo! Ela já sofreu tanto, o lugar dela é ao lado da mãe e do paiâ.
Desesperada e com o tempo batendo na porta, Antônia mudou de subprefeitura e alugou um pequeno apartamento de dois quartos, próximo a um hospital central. O problema é que o serviço social ainda não certificou a casa como estando dentro dos parâmetros exigidos. Na pequena casa vão morar apenas Linda, Antônia e o irmão Carlos*, que veio do Brasil alguns meses antes do acidente com a menina. Já Paolo e o filho mais velho de Antônia irão morar com os pais do companheiro italiano. Essa foi a solução encontrada, desmantelar um núcleo familiar para pelo menos tentar ter Linda em casa.
Ao questionar a assistência social do hospital sobre o que aconteceria caso a menina recebesse alta e a famÃlia não tivesse encontrado uma casa dentro dos requisitos exigidos, ela garantiu que Linda não seria colocada na rua. Refiz a pergunta outras duas vezes e a assistente social continuou não respondendo se a menina irá ou não para uma comunidade terapêutica. Linda receberá alta nos próximos dias e Antônia precisa que essa casa seja idônea.

Apesar do caso do que você fala, muitos destes afastamentos de menores acontecem porquê os peritos dos tribunais facem diagnóstico de uma doença inventada, a dita SÃndrome de alienação parental (SAP). Também no Brasil este fica um problema muito grande; vai precisar de uma informação correta sobre esta doença inventada. Está aquà uma tentativa d’isso. http://www.alienazionegenitoriale.org/pt/index.html
Nossa JanaÃna to impressionada que esse tipo de coisa acontece na Itália,um paÃs na Europa ocidental.não que a Itália tem muitas falhas eu sei,mas isso é inadimissivel nos dias de hoje.
Se isso existe por lá,tantissimo cois mais errada tem.
Acontece , e esta acontecendo na Italia com minha irmã , minha sobrinha Italiana e minha sobrinha brasileira. Tenho afirmações desse caso com provas e preciso denunciar pq minha irmã corre o risco de perder as 2 filhas .