âAnderson, tem freio essa bicha para descer esse negócio?â, pergunta o pastor Denis Silva, no banco do carona de uma moto, ao motorista, o âirmão Andersonâ. Anderson e Denis estão percorrendo a estrada MA-008, que liga Paulo Ramos a Arame, no interior do Maranhão. O objetivo é chegar à Marajá do Sena, localizada no meio do caminho entre os dois municÃpios. âAnderson, estou com vontade de pararâ, prossegue Denis. âMeu Jesus do céu, isso aqui dá um medo danado!â, exclama o pastor. âÃ, meus irmãos, como diz a irmã Vera, isso aqui é ladeira para macho nenhum botar defeitoâ. Os companheiros de viagem e de fé estão nos 23 km de terra do trecho final para alcançar o municÃpio mais pobre em renda do paÃs. As cenas estão registradas em um vÃdeo a que assisti no YouTube um dia antes de Yuri Fernandes e eu embarcarmos para o Maranhão para darmos inÃcio à série de reportagens “Extremos do Brasil“.
Leu essas? Todas as reportagens da série âExtremos do Brasilâ
Era tarde demais. Já contratara o aluguel de um carro 1.6 no aeroporto de São LuÃs. Teria que ir na fé. âPosso trocar por um 4 x 4â, perguntei ao atendente da locadora assim que me apresentei para retirar o veÃculo. âNão temosâ, ele respondeu. âPara onde vocês vão? Barreirinhas?â, referindo-se ao destino mais próximo do cartão-postal do estado, os Lençóis Maranhenses. âNão, para Marajá do Sena. Conhece?â Ele fez que não com a cabeça. Faria essa pergunta ainda para mais de dez pessoas durante o trajeto de 394 km que separam São LuÃs de Marajá do Sena. A resposta seria negativa invariavelmente. O máximo que consegui foi um GPS, que se mostraria extremamente útil até perdemos o sinal de satélite nos quilômetros finais da estrada, os mesmos registrados em vÃdeo pelo pastor Denis.
[g1_quote author_name=”” author_description_format=”%link%” align=”none” size=”m” style=”simple” template=”02″]Vamos para Marajá do Sena. Conhece? Faria essa pergunta ainda para mais de dez pessoas durante o trajeto de 394 km que separam São LuÃs de Marajá do Sena. A resposta seria negativa invariavelmente
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Veja o que já enviamosNossa esperança era conseguirmos mais informações em Bacabal, nosso pouso para alcançar Marajá do Sena, distante quatro horas do municÃpio. Na recepção do hotel Ibis, também nunca ninguém ouvira falar. Vem o gerente, que sabia apenas que a estrada era âpéssimaâ e nos advertiu que não havia hotéis mais próximos, confirmando a pesquisa que eu fizera no Google. Hotéis, de fato, não havia. Mas encontramos uma pousada inacabada em Lago da Pedra que seria o nosso abrigo caso não conseguÃssemos ir a Marajá e voltar para Bacabal no mesmo dia.
Multiplicam-se o número de motociclistas sem capacete e, muitas vezes, carregando na garupa mulher e filhos
[/g1_quote]O máximo que consegui foi um GPS, que se mostraria extremamente útil até perdemos o sinal de satélite nos quilômetros finais da estrada
[/g1_quote]Descer de São LuÃs para Marajá do Sena é também decrescer nos indicadores. A capital do Maranhão registrava, em 2010, um IDHM (Ãndice de Desenvolvimento Humano Municipal) de 0,768, considerado alto (quanto mais perto de 1, mais desenvolvido), e renda per capita de R$ 805, oito vezes maior que a marajaense. Bacabal, no meio do caminho, também está no meio das estatÃsticas: tinha, em 2010, um IDHM de 0,600, considerado médio, e R$ 375 de renda per capita. Na estrada, o declÃnio nos números ganha vida. De uma estrada razoável, a BR-135, passamos a estradas secundárias, gradativamente em piores condições, à medida que avançamos.
Uma Assembleia de Deus a cada dez minutos
Na primeira hora, saindo de Bacabal, contamos uma Assembleia de Deus a cada dez minutos em pequenas localidades. Depois, ao longo da estrada, não há templos da Assembleia nem de igreja nenhuma. Multiplicam-se o número de motociclistas sem capacete e, muitas vezes, carregando na garupa mulher e filhos. De boiadas cruzando a estrada próxima a Paulo Ramos, municÃpio onde o abate de carne é permitido, o que avistamos perto de Marajá do Sena foi um burrinho em pele e osso, antecipando o cenário desolador que encontrÃamos na localidade. Há vestÃgios de queimadas.
E muitos, muitos buracos. Tratores trabalham na recuperação da MA-008, mas não o suficiente para evitar meu medo e espanto tal qual o do pastor Denis. No bairro Novo Marajá do Sena, a uns dez minutos para alcançar a cidade, nosso entrevistado, o funcionário público Cláudio Firmo da Costa, adverte que teremos que descer uma ladeira muito Ãngreme para alcançarmos o vale onde está a zona central. âLá embaixo, alaga tudo quando choveâ, ele avisa. Olho para o céu e vejo nuvens cerradas e cinzentas. Dois meses depois, a situação de calamidade se instauraria no municÃpio.
Seguimos em frente, recusando o convite de Cláudio para almoçarmos em sua casa e contendo nossa vontade de dizer sim. O impoderável se aproximava, mas ainda não estava de todo convencida. Tinha achado o pastor Denis um pouco exagerado em seus temores. No vÃdeo postado por ele no dia 27 de junho de 2017 no You Tube, não se tem a dimensão da inclinação da ladeira. Agora, o mesmo medo se apoderava de mim, ao volante de um Sandero 1.6. âYuri, vamos continuar?â, perguntei, em busca de apoio moral e torcendo para que a resposta fosse sim. âSim!â, ele respondeu. âAgora que a gente chegou até aquiâ¦â.
Engatei a primeira, mas nem a marcha mais contida foi capaz de evitar as ligeiras derrapagens. No caminho, apenas motos e um pau de arara venciam os obstáculos sem sobressaltos. Aos trancos e barrancos â literalmente â chegamos e cumprimos nosso objetivo, como vocês puderam ler aqui. Felizmente, o algoritmo do YouTube não me sugerira antes da viagem um vÃdeo publicado posteriormente pelo pastor Denis, em que um carro não consegue vencer a estrada e os ocupantes têm que seguir a pé.
Exatamente um mês depois, partÃamos rumo ao nosso outro ponto da série “Extremos do Brasil”, Rio Fortuna, em Santa Catarina. O municÃpio está em várias listas: figura entre os que têm as maiores rendas per capita e domicilar do paÃs e está entre as melhores cidades para se viver no Brasil. A despeito de tantas referências, ela compartilha com Marajá do Sena o ostracismo. Na locadora do aeroporto em Florianópolis, pergunto ao encarregado de fazer a vistoria no carro antes de partirmos se a estrada até lá é boa. Uma pergunta muito mais protocolar do que investigativa, afinal eu já verificara todas as coordenadas antes de embarcarmos e estava segura que não haveria nenhum sobressalto no caminho. âNão conheço. Fica aonde?â, ele devolveu. Em Florianópolis, uma das escalas para a nossa reportagem, nossos entrevistados também ignoravam a pequena cidade, de apenas quatro mil habitantes, tão pródiga nos números.
Nos 190 km que separam a capital da cidade, partindo da BR-101 e seguindo por duas estradas estaduais, os extremos saltam aos olhos. As condições das rodovias fazem o carro de categoria econômica 1.0 parecer mais potente. O caminho é sinalizado por placas, o que torna o GPS dispensável. Dentro do prazo previsto, chegamos ao único hotel da cidade, o Rio Fortuna. Aà os extemos começam a se embaralhar. O hotel abriga também o único restaurante da cidade â além dele, apenas lanchonetes e uma pizzaria. à hora do almoço: a famÃlia de proprietários está sentada em uma mesa que comporta três gerações. A neta está com o uniforme da escola pública: não há ensino particular no municÃpio, como você pôde conferir na reportagem feita na cidade. Caminhoneiros estacionam seus veÃculos na rua em frente, entram e se servem. A desigualdade é muito sutil no municÃpio onde a renda per capita é de R$ 1.570.
Outro ponto em comum entre os extremos: não se vive à sombra do fantasma da violência. A vida transcorre pacata, dia após dia. à noite, tenho dificuldade de pegar no sono: uma vaca muge intermitentemente
[/g1_quote]Ansiosos, fazemos o check-in e avisamos na recepção que vamos dar uma volta pela cidade antes do almoço. Não demoramos mais que dez minutos de carro. Todo o comércio está fechado
[/g1_quote]Ansiosos, fazemos o check-in e avisamos na recepção que vamos dar uma volta pela cidade antes do almoço. Não demoramos mais que dez minutos de carro. Todo o comércio está fechado. Há uma rua principal, com via de mão dupla de ambos os lados e dividida por um canteiro gramado. Fora ela, há poucas ruas secundárias, pelas quais transitamos em busca de personagens. Nada. Voltamos para o hotel. Recebemos a explicação que tudo para na hora do almoço. Inclusive verificarÃamos depois que a própria delegacia fecha as portas. Outro ponto em comum entre os extremos: não se vive à sombra do fantasma da violência. A vida transcorre pacata, dia após dia. à noite, tenho dificuldade de pegar no sono: uma vaca muge intermitentemente.
Na conversa com os entrevistados, relatamos os contrastes que vimos em Marajá do Sena. Eles ouvem as histórias com atenção. Fazem perguntas. O universo é bem distante do cotidiano a que estão acostumados. Apesar da boa renda, não viajam. Só conhecem outras realidades pela televisão. Trabalham duro em suas propriedades, de sol a sol, de fato, sem clichês. No caminho de volta, na estrada, um desejo não me sai da cabeça: levar moradores de um ponto a outro nos Extremos do Brasil, os de Marajá do Sena para conhecerem Rio Fortuna e vice-versa. Abandono a racionalidade de repórter e me deixo levar pela ideia do jovem agricultor Luiz Henrique Roecker se encontrando com a famÃlia de Eva Gonçalves da Silva, nossos personagens nos dois extremos. Espero que este não seja um ponto final.
