Boa Vista (RR) – O número crescente imigrantes mudou completamente o cenário de Boa Vista, que vê o aumento da violência, das doenças e a superlotação dos hospitais tirar-lhe o tÃtulo de cidade tranquila e pacata. Recentemente, um caso confirmado de sarampo em uma criança venezuelana de um ano deixou a população em alerta. A prefeitura montou um ponto de vacinação na Praça Simón BolÃvar e vacinou 730 pessoas, entre crianças e adultos, no último sábado, dia 17.
[g1_quote author_name=”Nota do Governo de Roraima” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Não há previsão de retirada dos venezuelanas da praça Simón BolÃvar. Os abrigos estão superlotados
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Veja o que já enviamosUm dos termômetros da crise migratória em Boa Vista são os semáforos da cidade. Os imigrantes se juntam em grupos de 10 ou mais para limpar os para-brisas dos carros. Quando o sinal fecha, eles abordam os motoristas pedindo: âpuedo limpiar?â A presença dos limpadores já criou polêmica nas redes sociais e provocou a ação da polÃcia. Hoje eles vivem em constante alerta. âA maior parte das reclamações é por causa da insistência delesâ, justifica um policial, que acabara de chegar numa viatura para inibir a permanência dos venezuelanos. Mais de 20 que estavam no sinal saÃram em retirada, esperando que a polÃcia fosse embora para retornar à sinaleira.
Betania Hernández, 22 anos, veio com o marido de MaturÃn há três meses e sobrevivem de moedas nos sinais de trânsito. A bicicleta comprada por R$ 30 é o transporte do casal para chegar cedo ao trabalho todos os dias.
Com um rodo de mão, que a jovem comprou no supermercado, e uma garrafa PET de dois litros com água e sabão, ela distribui sorrisos em troca de âpermisoâ para limpar os vidros dos carros. âNão tenho moedasâ, avisa o advogado Fábio Martins, 56 anos, mesmo com o serviço oferecido como cortesia.
âTem brasileiros que não querem que limpe. Xingam a genteâ, reclama Eudenis Marcano, 25 anos. Ela também chega à s 7h para trabalhar no sinal e retorna à s 17h para o quarto alugado onde vive com mais oito venezuelanos. Há três meses em Boa Vista, ela disse ter conseguido fazer duas transferências de R$ 40 para a mãe que ficou cuidando de seus dois filhos. âTem dias que não temos dinheiro para comprar comidaâ, desabafa.
[g1_quote author_name=”Marcelino Moraleda” author_description=”LÃder Warao” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]As pessoas que chegam da Venezuela e contam que tem famÃlias que estão tomando só água. Ãs vezes comem só as seis horas da tarde
[/g1_quote]Abrigos em Roraima escondem a miséria instalada e sem hora para acabar
Longe das praças e dos sinais de trânsito, mais mil venezuelanos foram apinhados em abrigos. No Ginásio Tancredo Neves, periferia de Boa Vista, estão vivendo 596; próximo de lá, no bairro Pintolândia, vivem 382 indÃgenas das etnias Warao, Eñapa (Penare) e Pemon e no bairro Operário, foram alojados mais 183. Em Pacaraima, cidade que faz fronteira entre o Brasil e a Venezuela, somam-se mais 350.
Para os imigrantes da Praça Simón BolÃvar ainda não há destino. A prefeitura respondeu em nota que âaguarda a estruturação das ações junto ao Governo Federal e Estadual para que possa dar uma posição definitiva de apoio aos migrantes e decidir as próximas ações a serem realizadasâ. O governo de Roraima responde que, âpor enquanto, não há previsão de retirada deles daquele local, porque os abrigos estão superlotadosâ.
Na segunda-feira de carnaval, o presidente Michel Temer esteve em Boa Vista para uma reunião com a governadora Suely Campos (PP), a prefeita de Boa Vista, Teresa Surita (PMDB), e parlamentares de Roraima. A visita presidencial aconteceu depois que os ministros Torquato Jardim (Justiça), Raul Jungmann (Defesa) e Sergio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional) vieram a Roraima para tratar da crise migratória mas não saÃram da Base Aérea de Boa Vista. A notÃcia teve uma repercussão muito negativa. A ponto de os ministros mudarem a agenda – que seria apenas uma parada na capital roraimense para abastecer a aeronave e seguir para o Suriname, onde teriam outra reunião â e irem ver a situação dos venezuelanos na praça e se reunir com a governadora.
No último dia 15 o presidente assinou uma Medida Provisória (MP) que determina ações emergenciais nas áreas de proteção social, saúde, educação, direitos humanos, alimentação e segurança pública.
O governo também se comprometeu a repassar R$ 15 milhões para dar suporte às ações de apoio humanitário que o governo roraimense vem dando aos imigrantes. Por enquanto, o que há de concreto mesmo são as doações de pessoas que se compadecem com a situação dos imigrantes vivendo na rua com os filhos.
A sobrevivência dos Warao em terras brasileiras
No abrigo exclusivo para os Ãndios venezuelanos, a presença da Fraternidade â Federação Humanitária Internacional – tem ajudado na adaptação dos povos da mata a se manterem fora de seu habitat natural. Os 382 indÃgenas das etnias Warao (a maioria), Eñapa (Penare) e Pemon vivem em abrigos com melhor estrutura e adaptados à realidade dos Ãndios, barracas do lado de fora para abrigar famÃlias e liberdade para que eles mesmos preparem seus alimentos.
A conquista é recente. Os Warao, primeira etnia vista nas ruas de Boa Vista, por meio das mulheres balançando caixas de leite nos semáforos pedindo âplataâ, sofreram muita discriminação e xenofobia pela conduta de pedir esmola nas ruas. Antes, viviam ao redor da rodoviária e em feiras. Uma ação do Ministério Público Federal em Roraima, os retirou desses lugares e fez com que o governo os alojasse em abrigos.
Ainda se vê a prática de mendicância nas ruas de Boa Vista, mas hoje parte das Ãndias Warao dedicam-se ao artesanato de miçangas e confecção de redes. Cristina Perez é uma das que passam o tempo tecendo redes para vender em pontos turÃsticos da cidade.
No terreno do abrigo, voluntários da Fraternidade, em parceria com a Embrapa, preparam uma horta. Melão, banana, cheiro verde e buriti â base da alimentação dos Warao â foram cultivados e já dão os primeiros frutos.
âNão pretendo voltar para Venezuela. Lá, só há fomeâ, diz o aydamo â espécie de cacique â Ronny Baez, 29 anos. Ele trouxe toda a famÃlia para o Brasil. Marcelino Moraleda, 32 anos, é lÃder de 15 famÃlias Warao e também não pensa em voltar ao seu paÃs. âAs pessoas que chegam contam que tem famÃlias que estão tomando só água. Ãs vezes comem só as seis horas da tardeâ, conta.

Gente vamos ajudar nossos irmão é vizinho
Gente vamos ajudar nossos irmão é vizinho.