A palavra âgreveâ teve origem numa praça em Paris. Uma praça onde todos os turistas certamente já estiveram: a Praça do Hôtel de Ville, bem no centro da cidade luz. Ali, à s margens do rio Sena, a partir do século XIV, na Place de Grève, desempregados procuravam trabalho no movimentado ancoradouro, o Porto de la Grève por onde chegam mercadorias que abastecem Paris: a madeira, o trigo, o vinho, os fenos são descarregados ali, dando origem a instalação de um mercado. Depois, era na praça que os trabalhadores voltavam para reclamar das condições do trabalho, do pagamento e demonstrar sua insatisfação com os colegas.
A greve faz parte da cultura da França. Assim como o pão, o queijo, o vinho e a contestação. Discutir e protestar? Eles adoram. E o fazem com convicção e ardor.
Há um ano, em maio de 2016, a França parou para uma greve geral contra as reformas nas leis do trabalho. Dos transportes à s refinarias, passando pelos aeroportos de Paris, mais de dez setores ficaram em greve, no tradicional mês de maio, sempre lembrado pelos movimentos de 1968.  Atacado até por membros do seu partido, o presidente disse: âNão vou recuarâ. âNão há alternativaâ, acrescentou depois o então primeiro-ministro, Manuel Valls. Em Toulouse, sindicalistas bloquearam a entrada de um deputado socialista com tapumes. Em Perpignan, vários parlamentares foram encurralados no aeroporto.
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Veja o que já enviamosNão é possÃvel contar a história da França sem falar de greves. Elas estão por toda parte e em todas as categorias. E garantiram grandes conquistas sociais
[/g1_quote]Muitas sedes regionais dos socialistas ficaram protegidas pela polÃcia. Aliás, até a polÃcia fez greve. O maior sindicato da categoria, o Alliance, afirmou que a categoria estava cansada do fato de os policiais serem chamados de âselvagens que agridem os jovens cegamenteâ. Sob o lema âParem o ódio contra a polÃciaâ, os policiais convocaram 90 manifestações em diversas localidades do paÃs. Vale lembrar que o Governo francês é â ou foi â socialista. A reforma, que facilita e desonera as demissões, foi implantada âna marraâ, por força de decreto, mesmo repudiada por 70% dos franceses, segundo as pesquisas de opinião. Para Hollande e Valls, a reforma era ânecessáriaâ para melhorar a competitividade das empresas e da França.
 Não é possÃvel contar a história da França sem falar de greves. Elas estão por toda parte e em todas as categorias. E garantiram grandes conquistas sociais: em 1889, o 1° de maio passou a ser considerado como o dia anual da greve, com o objetivo de reduzir a jornada de trabalho para 8 horas, o que só aconteceu em 1919. Em junho de 1936, uma greve garantiu aos franceses o direito de ter férias pagas, convenções coletivas e criou-se a figura de representantes de empregados.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Mesmo quem não estava lá sabe que maio de 1968 representou uma ruptura na sociedade francesa. A ocupação da universidade da Sorbonne por 400 manifestantes foi o estopim de uma série de eventos que, pela primeira vez, culminou com uma greve geral, paralisando o paÃs
[/g1_quote]A greve também serviu para defender a democracia: em fevereiro de 1934 contra o fascismo e inúmeras vezes durante a Ocupação. Há ainda as greves de não assalariados, como as dos motoristas de táxi e dos donos de tabacaria â o francês sente muito quando isso acontece. E as greves não se limitam apenas aos setores produtivos.
Mesmo quem não estava lá sabe que maio de 1968 representou uma ruptura na sociedade francesa. A ocupação da universidade da Sorbonne por 400 manifestantes foi o estopim de uma série de eventos que, pela primeira vez, culminou com uma greve geral, paralisando o paÃs e tornando-se o movimento social mais importante da história da França no século XX. Com um viés antiautoritário, contra o capitalismo e o imperialismo americano, os franceses passaram a dar menos peso a alguns valores que sempre pautaram o paÃs: a autoridade, a famÃlia, a moral e a religião.
Depois de 68, as greves de 1995 foram as mais importantes e as que mais impactaram a França. Alain Juppé, na época primeiro-ministro de Jacques Chirac, esteve à frente de uma proposta para mudar o sistema de saúde e a aposentadoria: aumentar os anos de trabalho para o setor público, aumentar a participação dos pacientes nas despesas hospitalares, congelar as bolsas famÃlia, aumentar as cotizações, entre outras medidas extremamente impopulares. As greves paralisaram, entre outros setores, os transportes, obrigando o parisiense a fazer grandes trajetos a pé ou de bicicleta, em pleno frio do mês de novembro e dezembro.
Origens históricas das greves no Brasil
Com o fim da escravatura, em 1888, chegam ao Brasil imigrantes europeus para o trabalho nas lavouras de café e açúcar. Influenciados pelos valores humanos e pelas conquistas sociais que avançavam na Europa, os movimentos sociais começaram a crescer e acontece, em São Paulo, a primeira greve geral em 1917. Mais tarde, a industrialização fez aumentar o número de trabalhadores urbanos e a pressão por melhores condições de trabalho e de vida.
Em 1937, Getúlio Vargas tentou apaziguar as tensões sociais através da concessão de direitos trabalhistas e, com isso, diminuir o embate entre as classes. Em compensação, criou um sindicato único, manejado pelo Estado, e extinguiu o direito de greve, por considerar uma conduta antissocial, nociva ao trabalho, ao capital e aos interesses da produção nacional.
Somente na Constituição de 1988, o direito de greve é assegurado e regulamentado pela lei 7.783/89 que determina os requisitos para a deflagração do movimento.
Perdendo a cabeça na Grève
 A praça da Grève, em Paris, também foi palco de suplÃcios públicos por outras razões: era lá o palco para diversas execuções feitas durante o Antigo Regime e onde, durante a Revolução Francesa, foi empregada, pela primeira vez, a guilhotina. Diz a lenda que o âespetáculoâ não agradou a população, que esperava um suplÃcio mais demorado como os da Idade Média. Entre as últimas cabeças cortadas estavam as de um deputado e de um promotor público.
