A hora ainda é de pânico

Protesto contra Trump em Denver, Colorado (Foto Jason Connolly/AFP)

Operação 'calma, gente', iniciada após vitória de Trump, não reduz ameaça a liberdades civis e direitos humanos

Por Helena Celestino | ODS 1 • Publicada em 11 de novembro de 2016 - 09:05 • Atualizada em 11 de novembro de 2016 - 16:12

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Protesto contra Trump em Denver, Colorado (Foto Jason Connolly/AFP)
Máscara de Hillary Clinton é usada em protesto em Oakland: milhares de americanos foram às ruas contra a eleição de Trump (Foto Josh Edelson/AFP)

Assustadas, crianças acordam de manhã chorando, perguntando aos pais se serão mandadas embora dos EUA. Crianças não sabem se são imigrantes ou não, ninguém falou diretamente com as meninas e meninos sobre os planos de deportação em massa do presidente eleito Donald Trump, mas elas foram contaminadas pelo medo insuflado pelas ameaças do candidato em sua campanha. Foram meses de discurso do ódio, comentado com horror nas casas dos cidadãos identificados com a defesa da igualdade, das liberdades civis e dos direitos humanos.

Ninguém falou comigo (sobre o Holocausto), mas intuí. As crianças americanas estão intuindo o perigo também

Shepard Forman
Antrópologo

Cenas como essas foram testemunhadas pelo diretor emérito do Centro Internacional de Cooperação da Universidade de Nova York, antropólogo e escritor americano Shepard Forman, fazendo-o lembrar dos seus 5 anos, quando tinha pesadelos repetidos de que não achava os primos e só muito mais tarde veio a saber que tinham sido vítimas do Holocausto. “Ninguém falou comigo, mas intuí. As crianças americanas estão intuindo o perigo também”, diz.
O topete do bilionário já diminuiu e um descontraído Obama considerou excelente sua conversa com Trump, ao fim do primeiro encontro entre os dois na Casa Branca. Mas a operação “calma. gente”, iniciada logo após a vitória chocante do dublê de empresário e celebridade, não desarmou os sistemas de alarme emocional criados com a vulgaridade e intolerância demonstradas por ele em ataques a imigrantes, negros, muçulmanos e mulheres.

Nunca na minha vida vi um clima de desesperança tão grande, nem depois do assassinato do Kennedy ou do 11 de setembro

Shepard Forman
Antrópologo

Os mais vulneráveis estão em pânico. Os latinos estão se escondendo, as mães não estão mandando os filhos muçulmanos para as escolas na tentativa de protegê-los de possíveis hostilidades, exatamente como aconteceu logo depois do 11 de setembro. Um grupo de acadêmicos, todos muito bem sucedidos e já aposentados, se reencontrou há um ano para conversas pelo Skype: até terça, elas giravam em torno de netos e viagens, agora baixou uma depressão coletiva.
“Nunca na minha vida vi um clima de desesperança tão grande, nem depois do assassinato do Kennedy ou do 11 de setembro”, diz Sheppard, do alto dos seus quase 80 anos, ao fim dessa campanha em que trocou o Brasil pelos EUA para ajudar a derrotar Trump.
Os protestos também começaram. Nos campi universitários e nas ruas de 25 cidades, os jovens saíram gritando contra a eleição do bilionário racista, sexista, xenófobo: “Ele não é meu presidente”, “Vá embora”. As organizações de direitos humanos também lançaram alertas de que reagirão às tentativas de destruição das liberdades civis construídas nos últimos 60 anos.
“Estou muito pessimista”, diz um diplomata brasileiro.

Trump levou à radicalização dos brancos

Mehdi Hasan
Jornalista da Al Jazeera

A normalização da mais recente tragédia americana já começou, como previu David Remnick, editor da “New Yorker” num brilhante artigo feericamente compartilhado nas redes sociais. “Eles (os comentaristas) vão baixar o tom do virulento nacionalismo explicitado por um homem que viaja num avião dourado mas usa uma retórica populista baseada no sangue e no solo”, escreveu.
O ritual de passagem do poder desenrola-se com suavidade, como convém às democracias. Mas é estranho ver o primeiro presidente negro dos EUA dizendo que Trump “é muito boa gente” ao adversário político que teve apoio dos supremacistas brancos da Klu Klux Klan.
“Trump levou à radicalização dos brancos:”, denuncia o jornalista Mehdi Hasan, da Al Jazeera. Com a volta do Partido Republicano à Casa Branca depois dos oito anos de um Barack Obama comprometido com a defesa dos direitos humanos – menos do que prometera, é verdade – recomeça a discussão sobre a tortura dos “inimigos combatentes” , muito comum na era Bush. Como sabemos, o último presidente republicano – George W Bush – autorizou o “afogamento “ dos presos da Al Quaeda para arrancar confissões que levassem à prisão de Bin Laden. O futuro comandante- em-chefe dos Estados Unidos disse que tortura era um tema desimportante no passado e continua sendo agora, diante da fúria do Exército Islâmico. “Isso são peanuts”.
Todos os prognósticos deram mesmo errado. Todos especularam sobre o esfacelamento do Partido Republicano com a candidatura Donald Trump, repudiada pela elite conservadora, incluida aí toda a família Bush e Paul Ryan, o poderoso presidente da Câmara. Só que não. Com a vitória, divergências ficaram no passado e a palavra de ordem agora é um “ governo republicano reunificado”.
“A agenda política será a de Paul Ryan, uma agenda muito conservadora”, avalia Van Jones, comentarista politico da CNN.

Protesto contra Trump em Denver, Colorado (Foto Jason Connolly/AFP)

As apostas são de que a primeira providência do governo Trump será botar mais um conservador na Suprema Corte, nomeação que Obama não conseguiu aprovar por causa da oposição do Congresso de maioria republicana. Agora ficará fácil para o presidente eleito, com a maioria conseguida no Câmara e no Senado. Por que é importante? Todos os grandes temas passam pela Corte e, certamente, será examinado de novo o direito ao aborto, garantido às mulheres desde a década de 70. Várias tentativas de mudar o entendimento do tribunal sobre o tema já foram feitas e talvez o direito das mulheres de dispor do seu corpo não resista à ofensiva prometida pelo governo Trump.
O Obamacare também está condenado, apostam nove entre dez observadores qualificados da política americana, referindo-se à obrigação de empresas e governos garantirem um seguro saúde aos empregados, subsidiado aos mais pobres pelo governo.
Difícil saber muito mais, Trump defende e ataca uma única proposta, com a mesma veemência em pequenos espaços de tempo. Anunciou que iria construir um muro entre México e Estados Unidos, baixaria o imposto dos ricos, mandaria Hillary Clinton para a cadeia. Proibiria a entrada de muçulmanos, deportaria os imigrantes ilegais, abandonaria os tratados comerciais internacionais.
“Não tomem suas palavras literalmente”, dizem os próximos do presidente eleito, um conselho não muito comum para interlocutores do homem mais poderoso do mundo.
As mulheres também acusaram o golpe. Vieram delas 20 milhões dos votos para Trump, apesar de suas chocantes declarações de que segurava as moças pela xoxota porque era uma celebridade e de acusar de mentirosa cada mulher que denunciou seus abusos sexuais. As revelações sobre o machismo do então candidato reativaram o movimento feminista, mas não convenceram as mulheres de estados mais conservadores a sairem de casa em número suficiente para eleger Hillary. Ela ganhou no voto popular, mas não levou a Presidência.
Preconceito de gênero? Talvez, um pouquinho. As mais jovens se rebelaram contra o autoritarismo das feministas pioneiras que consideravam traição não votar em Hillary. Por todo o país era forte a rejeição à cultura do segredo e ao establishment politico representado pela dinastia Clinton. Os homens brancos, pouco educados, mal remunerados e zangados disseram não à América moderna, globalizada, conectada, escolarizada nas grandes universidades. Além de todos os outros perigos representados por Trump, a eleição dele também traz o risco de seu truculento comportamento com as mulheres virar o novo normal .

Helena Celestino

Jornalismo é um vício assumido, é difícil me imaginar longe da notícia. Acostumei a viver com o dedo na tomada: aprendi isto trabalhando, viajando pelo mundo e sendo por muitos anos editora executiva do Globo.

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