A área de um antigo polo industrial desativado se tornou um território de resistência indÃgena na Região Metropolitana do Recife. Desde 31 de dezembro, quem passa pela Estrada Monjope de Igarassu (PE), a pouco mais de 28 km da capital, nota faixas de tecido nas cores vermelho, preto e branco. Aos mais atenciosos, a palavra Karaxuwanassu indica o povo pluriétnico que acampa no local.
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Atualmente, já são mais de 60 famÃlias indÃgenas ocupando o terreno e, segundo a cacica ValquÃria Kyalonãn, o grupo aumenta gradativamente com a chegada de âmais parentesâ. Na maioria, são indÃgenas que vivem nas áreas urbanas das cidades vizinhas em situação de vulnerabilidade social. Eles reivindicam o território que denominam como ancestral e que, segundo eles, foi indicado por entidades após um de seus rituais religiosos.
âA gente recebeu os nossos encantados da natureza sagrada e foram eles, Kaetés, que nos guiaram até essa terraâ, explica a cacica ValquÃria, de 57anos, referindo-se ao povo indÃgena que habitava o território antes do que ela chama âinvasão portuguesaâ.
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Veja o que já enviamosKaraxuwanassu é um grupo que reúne diversas etnias indÃgenas de Pernambuco e outros estados brasileiros, além de alguns que vieram de outros paÃses da Abiayala – que na lÃngua do povo Kuna significa América – como Venezuela, BolÃvia e Peru. A proposta é transformar a área ocupada na Aldeia Mataro Kaetés, que seria a primeira reserva indÃgena em contexto urbano do Nordeste.
O grande povo guerreiro
Karaxuwanassu significa o grande povo guerreiro em Brobo, lÃngua ancestral. A união desse povo surgiu a partir da Associação IndÃgena em Contexto Urbano Karaxuwanassu – Assicuka – criada em janeiro de 2021 para lutar pelos direitos desses indÃgenas que ficavam sem assistência pública por não estarem inseridos em aldeias.
A primeira mobilização foi pela vacina contra a gripe, depois pela imunização como grupo prioritário na pandemia de Covid-19. A cacica afirma que por conta da falta de vacinas, negadas com a justificativa de não terem um território, âmorreram muitos idosos, pessoas com mais de 100 anos de vidaâ entre os indÃgenas urbanos da capital pernambucana. Então, foi criada a associação para representar a todos, inclusive permitindo que ocupem cadeiras nos conselhos públicos.
Durante o perÃodo de isolamento, quando as reuniões foram transferidas para o online, o grupo cresceu com a participação de outros estados e paÃses. âA gente viu que eram muitos, não éramos só nós e tÃnhamos que ter esse olhar mais profundo com relação a essas polÃticasâ, lembra a cacica.
âA gente se juntava também para fazer nossos rituais, porque em muitos lugares a gente não podia fazer, muita gente estereotipava, sempre com preconceito. Falavam até dos nossos xanducas, que é o cachimbo da gente, diziam que eram outras coisas e que não tinha nada a ver o que a gente estava fazendoâ, relata.
Resgate ancestral
Sentado em um tronco de madeira com o seu xanduca em mãos, o pajé Juruna, 42 anos, conta que um grande desafio da articulação dos povos indÃgenas, que atualmente estão vivendo nas áreas urbanas, é a insegurança que alguns sentem em falar que são indÃgenas.
âO nosso povo passou muito tempo proibido de falar a lÃngua e praticar os rituais. Muitos foram violentados nesse processo, ou vêm de famÃlias que também passaram por isso, então trouxeram essas marcas que são dos nossos antepassadosâ, explica.
O indÃgena vive da terra; antes mesmo da invasão a gente tinha nossas terras, a gente já vivia da agrofloresta. A gente comia a semente, jogava e nascia. Hoje, a mão inimiga do homem acabou com tudo e a gente agora está recuperando
O pajé atua há quase três décadas no resgate das lÃnguas maternas e dos costumes desses povos. âComecei a fazer essa pesquisa da lÃngua através dos documentos e com os próprios mais velhos, que diziam como a gente falava. Tinha pouco material e comecei com o tronco linguÃstico, que muitos chamavam de tupi-guaraniâ, conta.
Entre as famÃlias da ocupação são vários os idiomas, falam o português e o espanhol, além de mais de cinco dialetos indÃgenas. Juruna explica que por causa das perseguições históricas, muitas famÃlias indÃgenas saÃram das suas comunidades e se espalharam pelo mundo. A famÃlia dele se instalou no Coque, comunidade na área central do Recife, marcada pelo o pior Ãndice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade, onde se somam mais outras 60 famÃlias de indÃgenas. Aos poucos, elas estão se mudando para a ocupação.
âEstamos fortalecendo a Cultura através do nosso ritual sagrado, o Toré. Os nossos encantados indicaram essa terra, que somos os seus protetores e aqui que temos que ficar. Estamos protegendo, identificando muitas áreas que estão degradadas e já estamos começando a plantar algumas mudas de árvores e da nossa medicina, fazendo tratamento em alguns parentes que precisamâ, conta o lÃder religioso.
Terra sagrada
A área ocupada pelos indÃgenas tem aproximadamente 120 hectares e é conhecida como Polo Empresarial Ginetta, empreendimento em liquidação judicial, mas registros históricos apontam que o território foi berço dos Caetés no século XVI. Rubenita Kariawane, 51, da etnia Wassú-Cocal, nasceu em uma comunidade indÃgena, entre os estados de Pernambuco e Alagoas, e saiu para estudar. Na ocupação, ela tem atuado na implantação dos Sistemas Agroflorestais, uma atividade agrÃcola que respeita o ecossistema local.
à uma questão de Justiça estarmos aqui. Aqui foram dizimados os Paratiós e nós, todos os indÃgenas brasileiros, somos seus descendentes. Somos bisnetas daquelas mulheres que foram estupradas, violentadas e mantidas em cárcere
Em pouco tempo de trabalho, eles já plantam sementes de feijão, milho e outras culturas na área. “Queira ou não, o indÃgena vive da terra; antes mesmo da invasão a gente tinha nossas terras, a gente já vivia da agrofloresta. A gente comia a semente, jogava e nascia. Hoje, a mão inimiga do homem acabou com tudo e a gente agora está recuperando”, afirma.
Antônio Gonzales, 31, capina uma área na entrada do terreno junto à Rubenita e o pajé. Os canteiros serão destinados a novas sementes. O indÃgena venezuelano dos Guarwao foi para a ocupação na cidade pernambucana com toda a famÃlia após uma peregrinação por estados brasileiros. Desde que saiu de seu paÃs, em 2017, residiu em Boa Vista-RR, Manaus-AM, São Luiz-MA e chegou ao Recife em 2019, onde se instalou e sobreviveu de artesanatos.
Gonzales descreve a terra como sagrada. “Foi uma coisa espiritual que me chamou aqui. A terra me chamou a atenção. Eu como agricultor, me agradou muito a terra, para trabalharmos. Pra mim foi um suspiro, pois quando cheguei aqui me senti livre. Me encontro muito feliz com os nossos parentes, porque somos irmãos de sangue”, diz em espanhol.
âA revolução é indÃgenaâ
O que um dia pode vir a ser a aldeia Mataro Kaetés ainda é um terreno que pertence à prefeitura e tem grande especulação imobiliária. Desde que iniciaram a ocupação, os indÃgenas convivem com a ameaça de despejo. A Prefeitura de Igarassu chegou a dar entrada no pedido de reintegração de posse, justificando que no local seria construÃda uma escola, mas a Assicuka conseguiu na justiça a suspensão temporária da ação.
Adi Kayany, 44, é natural de Pesqueira-PE e residia em Recife, antes de ir com a famÃlia para a ocupação, onde ajuda na comunicação e no cuidado com as crianças. âAqui todo mundo se ajuda, todo mundo faz alguma coisa. Planta, atende na portaria⦠a gente é bem unido nessa questão de delimitar o que se faz, porque a gente tem que se unir cada vez maisâ, explica.
âà uma questão de Justiça estarmos aqui. Aqui foram dizimados os Paratiós e nós, todos os indÃgenas brasileiros, somos seus descendentes. Somos bisnetas daquelas mulheres que foram estupradas, violentadas e mantidas em cárcere. Estamos aqui como guerreiras cobrando essa injustiça e honrando toda essa história que o livro não conta, para mostrar para o Brasil que o Brasil não foi descoberto, que aqui foi uma invasãoâ, pontua.
