Mulheres encarceradas

Presidiárias enfileiradas na quadra de futebol. Foto de Divulgação

Grupo 'Elas Existem' dá voz e joga luz sobre a situação das presidiárias no Brasil

Por Marcelo Ahmed | ODS 1 • Publicada em 29 de setembro de 2016 - 06:13 • Atualizada em 7 de janeiro de 2019 - 13:44

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Presidiárias enfileiradas na quadra de futebol. Foto de Divulgação
Internas do Degase assistindo aulas dentro da instituição.

Criado há pouco mais de dois meses, “Elas Existem – Mulheres Encarceradas” é um grupo composto exclusivamente por mulheres para dar voz às suas parceiras de gênero que estão dentro da prisão. Nesse curto período, elas ganharam corpo, vêm fazendo barulho e dando luz a um problema num universo predominantemente masculino: a invisibilidade.

“Se em nossa sociedade a prioridade é dos homens, imagina na prisão, onde eles são maioria. Somos um grupo formado por mulheres e para mulheres, que decidiu seguir nesse trabalho voluntário para aquelas que são, em sua maioria, esquecidas e abandonadas por suas famílias e pelo estado”, conta a advogada Caroline Bispo, coordenadora do grupo, que tem um total de 26 integrantes, na maior parte profissionais de Direito.

Se em nossa sociedade a prioridade é dos homens, imagina na prisão, onde eles são maioria. Somos um grupo formado por mulheres e para mulheres, que decidiu seguir nesse trabalho voluntário para aquelas que são, em sua maioria, esquecidas e abandonadas por suas famílias e pelo estado

Caroline Bispo
coordenadora do grupo

Das 579.781 pessoas privadas de liberdade no Brasil, 37.380 delas são mulheres, o que representa 6,44% do total, segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen). No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) diz que são 2.239 (4,47%) presas entre 50.083.

E o pior é que cada vez mais mulheres estão sendo presas. Ainda segundo o Depen, houve aumento de 571% da população carcerária feminina entre 2000 e 2014, pulando de 5.601 para 37.380. No mesmo período, o crescimento da presença de homens na prisão foi de 220%.

“Mesmo diante desses números, o sistema penitenciário permanece construído por homens, para homens, e apenas mal adaptado para mulheres. Não há uma perspectiva de gênero, o que torna a privação de liberdade ainda mais cruel para as mulheres”, diagnostica a advogada Maíra Fernandes, ex-presidente do Conselho Penitenciário do Rio de Janeiro e membro do Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem).

Internas enfileiradas na quadra de futebol.

Grávidas na cadeia

Numa realização conjunta com a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maíra Fernandes foi uma das responsáveis por pesquisa – ainda não publicada – sobre a experiência da maternidade em duas unidades do sistema prisional do Rio: o Presídio Talavera Bruce (TB) e a Unidade Materno Infantil (UMI).

Das 41 mães e grávidas ouvidas, 65,9% afirmaram não receber visitas na prisão. Das que recebem visitas, maior parte recebe da mãe (50%). Marido ou companheiro correspondem somente a 14,3% dos visitantes. Dentro do perfil delas, 70% são primárias e 75,6% tinham algum parente preso, sendo quase metade (46,3%) o companheiro.

Homem não aguenta a carga de visitar uma mulher encarcerada. Muitas vivem em condições subumanas, sem sabonete pra tomar banho, sem lençol pra cobrir o colchão, sem material higiênico. E também há o desrespeito dos agentes. Esse é que é o pior de todos

Ex-detenta

O abandono é o sentimento comum entre ex-presidiárias e quem trabalha no ramo. E não só por parte do poder público, mas também das famílias. “Homem não aguenta a carga de visitar uma mulher encarcerada. Muitas vivem em condições subumanas, sem sabonete pra tomar banho, sem lençol pra cobrir o colchão, sem material higiênico. E também há o desrespeito dos agentes. Esse é que é o pior de todos”, diz uma ex-detenta.

Outra ex-presa reivindica mais atenção: “A direção não se importava com as coisas que aconteciam. Tinha gente dormindo no chão. Às vezes tem presa que a família chega lá sem nada, o preso vai pedir ajuda e eles pouco se importam pra dar uma autorização. Porque algumas famílias moram longe”, ressalta. “Eles (direção e agentes) limitam as coisas pra entrar e tal. E o jeito dos funcionários de tratar os presos. Na época eu tava grávida, minha bolsa estourou. O SOE (Serviço de Operações Especiais) demora a vir. Eles maltratam muito a gente. Pra conseguir um atendimento é difícil. Já teve gente que morreu lá dentro”, acrescenta a ex-detenta, para quem falta mais “paciência, atenção e entendimento” em relação a elas.

Cemitérios de mulheres vivas

Maíra classifica os presídios femininos como “cemitérios de mulheres vivas”. Ela reforça a temática do abandono chamando a atenção para a diferença em relação às unidades masculinas, onde são comuns filas do lado de fora com mãe, mulher e filhos. “A mulher não tem quase ninguém visitando, não tem fila. Normalmente, quando é presa, a família toda se desfaz”, afirma. Outra característica que difere os presos das presas é que os homens costumam reclamar das condições das celas ou estão curiosos por suas situações penais, enquanto as mulheres se preocupam com os filhos, sobre os quais ficam vários dias sem notícias.

Nas unidades onde estão internadas crianças e adolescentes, administradas pelo Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas), o trabalho do grupo está mais adiantado. Sempre que promove um evento, há campanhas de doações de materiais em falta nas unidades prisionais. Os principais itens são absorvente, sabonete, gilete, pasta de dente e creme de cabelo. Também podem ser doados livros, camisa branca, toalhas e meias.

No Centro de Sócioeducação Professor Antonio Carlos Gomes da Costa, na Ilha do Governador, elas promovem o projeto “A minha história existe”, em que as internas contam suas experiências também através de cartas. “Elas sentem falta de falar. Dizem: vocês tratam a gente com respeito”, conta Caroline.

Entre as dezenas de cartas, uma delas, escrita caprichosamente em tinta verde, descreve a “vida sofrida” e finaliza com uma frase em letras garrafais, traduzindo o sentimento de todas: “Uma estória que ainda vai ter final feliz”.

Marcelo Ahmed

Marcelo Ahmed é um jornalista carioca que começou a carreira em jornais impressos, passando por 'Ultima Hora', 'Tribuna da Imprensa', 'Jornal do Brasil' e 'O Dia'. Foi para a 'TV Globo' para trabalhar no Linha Direta, rodando pelo jornalismo diário, Fantástico e G1. Seu último emprego foi como assessor-chefe da ASCOM do Ministério Público do Rio. Tem dois prêmios Tim Lopes de Jornalismo Investigativo e uma Comenda da Paz por trabalhos em Direitos Humanos. E já é vovô de Théo.

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12 comentários “Mulheres encarceradas

  1. Maria Izabel Valenca disse:

    Olá Marcelo, boa noite! Gostaria primeiramente de te parabenizar pela matéria sobre mulheres encarceradas. Ficou muito legal! O projeto: “Elas existem, mulheres encarecradas” é incrível!
    Gostaria apenas de acrescentar que o projeto foi indelizado e é executado também por Nathália Gaspar, que não foi mencionada em seu texto, a qual merece todos os créditos desse lindo trabalho que vem executando com tanta dedicacão.

  2. Maria Izabel Valenca disse:

    Prezado Marcelo,

    Peço que desconsidere minha mensagem enviada anteriormente quanto aos créditos do projeto, pois me equivoquei.
    Peço desculpas pelo incômodo!

    • Maria disse:

      Também quero me corresponder! Tenho muito interesse em poder compartilhar essa trajetória mundana com alguém que na minha percepção não teve a mesma sorte que eu.

  3. Cinthia disse:

    Sou uma ex detenta e de todas as reportagens que encontrei após ter saído essa foi a mais próxima da realidade que existe dentro do sistema penitenciário, estou disposta a contar e compartilhar tudo que passei lá por 8 meses e 19 dias …

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