Já assistiu a um comercial de margarina só com atores negros? Aliás, quantos afro-descendentes você já viu em comerciais? Dou-lhe uma… Dou-lhe duas… Deu branco? Nunca parou para pensar sobre isso? Pois o ator Ãrico Brás, o Jader, de “A Lei do amor”, trama das 21h da Globo, e sua famÃlia não só refletem muito sobre o tema como resolveram fazer dele um dos assuntos centrais de um canal no YouTube: o Tá Bom Pra Você? Criada em 2013, a websérie retrata cenas cotidianas de racismo. Em outubro, após uma pausa, a série voltou com novos episódios e terá novidades em 2017, quando completa quatro anos. Entre elas, uma campanha, em jornais e revistas, por uma maior representatividade de negros na publicidade. Fotos assinadas pelo badalado Fernando Torquatto  vão reproduzir comerciais de produtos, como o xampu infantil e o absorvente Ãntimo, só com atores e modelos negros. O projeto é uma parceira da Kbra Produções, de Ãrico e sua mulher e empresária, Kenia Maria, com a Heads Propaganda, e conta com o apoio do Ministério Público de São Paulo e de vários artistas negros.
[g1_quote author_name=”Ãrico Brás” author_description=”Ator” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosTer negros fazendo papéis que não sejam de escravos, na TV, é uma conquista, mas muito pequena
[/g1_quote]O questionamento sobre a falta de negros na publicidade brasileira sempre esteve presente no Tá Bom Pra Você?.  Na primeira temporada, um dos episódios com maior audiência foi o Margarina Black.  Com Ãrico, Kenia e os filhos interpretando o comercial clichê da famÃlia feliz no café da manhã: “Porque negro também come pão, com margarina”, fazem coro. O assunto voltou à baila na segunda temporada. Em um vÃdeo, as  atrizes Zezé Motta e Ruth de Souza dão depoimentos falando sobre o preconceito. Contam que fizeram apenas dois comerciais na vida. A primeira tem 50 anos de carreira. A segunda, 70.
A presença do negro na TV, hoje, está maior, Ãrico admite. Os negros já não são mais chamados apenas para viver papéis estereotipados.  “Ter negros fazendo papéis que não sejam de escravos é uma conquista, mas muito pequena”, ressalva. “Não estamos conformados”.  Ele lembra a personagem de Tia Anastácia no SÃtio do Picapau Amarelo. “Não sabemos se a Anastácia é casada, se tem filho, onde mora… Não sabemos nada dessa mulher.  Mas a gente vai contar”, ri, falando de um próximo episódio do Tá Bom Pra Você?.
A websérie começou como uma produção caseira e coletiva. As gravações, em geral, aconteciam no apartamento da famÃlia, em Laranjeiras. Ãrico, a mulher, e os filhos, Gabriela e Mateus Dias, participam como atores e dão ideias de temas e pitacos nos roteiros um dos outros. Hoje, mesmo à s voltas com as gravações da novela das 21h e do Zorra, humorÃstico semanal da TV Globo, o ator tenta encontrar uma brecha para continuar participando do projeto. Ele foi idealizado por sua mulher, que também é atriz, e por Gabriela, de 17 anos,  que faz curso de teatro e vai se lançar como cantora, em breve. Mateus, de 20, é  estudante de Biomedicina, e anda preferindo fazer apenas figuração nos episódios, sem falas.
A militância faz parte do dia a dia da famÃlia. Foi Gabriela quem teve a ideia da websérie. A moça nasceu na Venezuela, onde sua mãe trabalhava com marketing esportivo.  âNaquela época, não havia lei contra o racismo no paÃs. Na escola, eu e meu irmão sofrÃamos muito. Quando viemos para o Brasil, em 2008, achei que aqui iria ser diferente, que eu ia me encontrar… Não foi assimâ, lamenta. Na nova escola, no Rio, ela diz ter enfrentado o mesmo preconceito que sofria no paÃs onde nasceu. âFalavam do meu cabelo, da minha pele… Isso para uma criança é muito forteâ.
Gabriela ficou chocada quando uma revista feminina, falando da Ãfrica, fez um ensaio com uma modelo francesa, branca. âPintaram ela de preto. Fiquei espantada. Comentei com a minha mãe. Queria fazer alguma coisa para expressar a minha indignaçãoâ. Da conversa, surgiu a ideia do canal no Youtube.
Hoje, o Tá Bom Pra Você? é usado em escolas.  “Os professores exibem os episódios nas aulas de história, sociologia, filosofia”, conta Ãrico. “Esse projeto é uma contribuição social, que existe muito na raça, na vontade de fazer”.
[g1_quote author_name=”Kenia Maria,” author_description=”Atriz e empresária” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Somos uma famÃlia negra no bairro de Laranjeiras, que é muito conservador. Então, logo que fomos morar lá, vimos o racismo bater à nossa porta
[/g1_quote]Casados há quatro anos, Kenia e Ãrico estão escrevendo uma peça juntos, inspirada no projeto. Eles próprios protagonizarão o espetáculo, que tem tÃtulo provisório de Double Black. A ideia é estrear em 2017.  âà um pouco comédia romântica, um pouco stand-up, um pouco âTá bom pra você?ââ, ela adianta. O que não falta ao casal, infelizmente, são histórias de preconceito para contar. A coleção é grande. âSomos uma famÃlia negra no bairro de Laranjeiras, que é muito conservadorâ, diz Kenia. âEntão, logo que fomos morar lá vimos o racismo bater à nossa portaâ. Literalmente. Quando Ãrico foi receber o entregador de pizza, o rapaz foi logo conferir o número do apartamento: âNão é aqui não, né?ââ, perguntou, constrangido. Era. Em outra ocasião, bateram para entregar material para um pedreiro, branco, que fazia obra na casa da famÃlia. âQuando abri a porta, ele não quis me entregar. Precisou o pedreiro vir, dizendo que era ali mesmo, para que ele deixasse a encomenda…â, lembra Kenia.
Muitos dos episódios do Tá Bom Pra Você? são inspirados em situações que a famÃlia passou. Como o do casal que vai a um restaurante chique e, apesar de ver o salão vazio, é barrado na porta, porque “a casa está reservada para um grupo de holandeses”. Aconteceu com  Ãrico e Kenia, em São Paulo.  âO brasileiro não admite que é racista. Então, se o problema não existe, não se conversa sobre ele. E o maluco é você (que diz sofrer preconceito). Ainda temos que provar que não somos loucosâ, Kenia ri.
A atriz e empresária tem sido convidada para dar palestras sobre o tema.  Este ano, ela participou do TED X, em São Paulo, falando sobre as questões que retrata no Tá Bom Pra Você?.  âOs negros representam mais da metade da população do paÃs e consomem  mais de R$ 1,5 trilhão por ano. Mas estamos representados em apenas 4% da produção audiovisual brasileira, inclusive, na publicidade. E se a gente parar de comprar?â, questiona.
