âNós somos os invisÃveis dos invisÃveisâ. à assim que Siana Guajajara, indÃgena de 29 anos, acredita que a sociedade e o governo consideram pessoas como ela. Siana tem paralisia cerebral e faz parte do universo de indÃgenas com deficiência que não consta nas estatÃsticas oficiais. Embora a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos IndÃgenas recomende nos artigos 21 e 22 que os estados adotem medidas eficazes e especiais para melhoria da condição social e econômica dos povos indÃgenas, com especial atenção aos idosos, mulheres, jovens e pessoas com deficiência, há um apagão global de dados sobre essa última categoria.
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âAs pessoas acham que não existimos, que nosso povo nos matava. Não só existimos, como queremos polÃticas públicas que nos atendaâ, reivindica Siana, que nasceu de forma prematura, aos sete meses. No hospital, diz ter sido vÃtima de erro médico: âDeixaram a incubadora sem oxigenaçãoâ. Os médicos acreditam, comenta, que esse foi o motivo para ela ter adquirido a deficiência.
Quando bebê, Siana não sentava e demorou a andar, o que chamou atenção dos pais. O diagnóstico de paralisia cerebral só veio aos três anos de idade. à época, um médico sugeriu que a famÃlia procurasse a Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, que possuÃa uma unidade em São LuÃs, no Maranhão.
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Veja o que já enviamosEmbora morasse na cidade, a famÃlia de Siana fazia parte do Território IndÃgena Canabrava, que fica a cerca de 498 quilômetros de distância da capital do estado, uma viagem que chega a durar até oito horas. A mãe de Siana, Marline Leão Guajajara levava a filha à s consultas e repassava as orientações médicas para o restante da famÃlia.
Siana viveu entre a aldeia e a cidade até os 18 anos, tendo, nesse meio tempo, morado nos municÃpios Barra do Corda e Grajaú, que ficam nos arredores da terra indÃgena. Devido a distância até o hospital, Siana chegou a perder o horário algumas vezes. âOs órgãos indÃgenas não davam esse suporte, somente passagem e podÃamos ficar na Casai, mas era o indÃgena que precisava garimpar a informaçãoâ, diz.
Embora recebesse olhares de estranhamento de parentes de outras aldeias vizinhas, sendo chamada de apelidos preconceituosos por conta da limitação fÃsica, ela diz que a famÃlia sempre a apoiou. Mesmo superprotegida pelos pais, era estimulada a conquistar independência e chegou a ganhar uma bicicleta de presente. E ri quando lembra que nunca aprendeu a pedalar: âGostava mais do vento no rostoâ.
Com a morte da mãe, Siana se distanciou do território indÃgena e mudou com a famÃlia para Alto ParaÃso de Goiás, onde reside atualmente. Com a mudança de endereço, passou a ser atendida na Rede Sarah de BrasÃlia. Usuária de muleta, a paralisia cerebral não afetou sua capacidade cognitiva, somente a motora.
Pesquisadora de educação inclusiva, está cursando Licenciatura em Letras-Português no Instituto Federal de BrasÃlia, no Campus São Sebastião. De casa até a faculdade é preciso pegar três conduções, em um trajeto que dura cerca de duas horas, diariamente.
Mas as dificuldades não a impedem de nada. âEstamos demarcando espaço. Estou viva e continuo persistindoâ. Militante contra o capacitismo, Siana defende o direito dos indÃgenas com deficiência:
Precisamos mostrar aos parentes do contexto urbano e os que estão no território nossa existência, que, por muito tempo, foi apagada e demonizada
âPrecisamos mostrar aos parentes do contexto urbano e os que estão no território nossa existência, que, por muito tempo, foi apagada e demonizadaâ, diz Siana, se referindo ao fato de que, em algumas etnias, era tradição a prática do infanticÃdio em bebês nascidos com algum tipo de deficiência.
Apagão de dadosÂ
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) constatou, no documento âPessoas IndÃgenas com deficiência, acesso à formação e emprego’, publicado em 2015, que o grupo onde estão incluÃdos os indÃgenas com deficiência é considerado o mais vulnerável. Essas pessoas, segundo a OIT, enfrentam múltiplas formas de discriminação baseadas âna raça, etnia, gênero, lÃngua e deficiênciaâ, o que, em última instância, âprejudica sua participação na educação, formação e no emprego, conduzindo-os à grave exclusão social e pobrezaâ.
Siana conhece bem essa realidade e diz viver múltiplas lutas. âSou mulher, indÃgena, com deficiência e não possuo alguns traços estereotipados atribuÃdos ao meu povo, não tenho o cabelo liso, por exemplo, o que gera questionamentos quanto à minha origemâ, diz, ao falar dos cabelos cacheados. âNada disso me faz menos indÃgenaâ.
Segundo a OIT, existem no mundo 54 milhões de indÃgenas com deficiência. E o motivo para o apagão de dados é claro: ârelutância dos estados em reconhecerem seus povos indÃgenas; restrições de recursos para o desenvolvimento e aplicação de um conjunto mais abrangente de instrumentos e falta de envolvimento com as perspectivas indÃgenas sobre deficiênciaâ.
Para a Rede Global de Pessoas IndÃgenas com Deficiência (em inglês, Indigenous Persons with Disabilities Global Network, cuja sigla é IPWDGN), a população indÃgena com deficiência é de 71 milhões, um número ainda maior do que aquele projetado pela OIT.
No Brasil, a população total de indÃgenas é de 1,7 milhão, o que representa 0,83% do quantitativo de brasileiros, segundo o Censo demográfico de 2022. Mas o mesmo Censo ainda não contabilizou o percentual de indÃgenas com deficiência. De acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE), esses dados ainda não foram totalizados e a divulgação dessas informações está prevista para 2025.
O recorte também não fez parte da última Pesquisa Nacional por Amostra de DomicÃlios (PNAD), que concluiu um total de 18,6 milhões brasileiros com algum tipo de deficiência â esses dados se referem exclusivamente a pessoas que se autodeclararam branco, preto ou pardo, apesar de o IBGE ter inserido a população indÃgena como categoria de pesquisa desde 1991.
Falta apoio dos órgãos que dizem que nos representam. Sem um quantitativo de quem somos e onde estamos, como vão fazer projetos de polÃtica pública que nos alcancem?
âFalta apoio dos órgãos que dizem que nos representam. Sem um quantitativo de quem somos e onde estamos, como vão fazer projetos de polÃtica pública que nos alcancem?â, questiona Siana, comentando que as poucas informações disponÃveis estão fragmentadas nos ministérios da Saúde e da Educação.
Post desabafo
Com a morte da mãe e a mudança de estado, Siana se afastou dos costumes e tradições do povo Guajajara. Em 2017, quando tinha 22 anos, decidiu acompanhar a irmã ao Acampamento Terra Livre (ATL). âFoi quando me senti pertencente novamente, toda a memória voltou, lembrei da minha mãe, me senti em casa de novoâ. Não demorou a perceber a ausência de indÃgenas com deficiência na maior assembleia dos povos e organizações indÃgenas do Brasil: âSentia que só havia eu aliâ.
Até que quatro anos depois, em 2021, avistou dois indÃgenas na mesma condição que ela no ATL. Ouviu de um deles um comentário crÃtico ao encontro: âMe falou que debochavam da nossa presença, porque o acampamento não oferecia nenhuma estrutura para pessoas com deficiência, como nósâ. A observação serviu como motivação. Estimulada por uma amiga, Siana participou, no ano seguinte, da Marcha das Mulheres IndÃgenas de 2022 e concluiu todo o percurso. âAs pessoas olhavam com estranhamento, tiravam fotos, se assustavam por eu estar aliâ, lembra.
A necessidade de mostrar que indÃgenas com deficiência existem e precisam de polÃticas públicas que lhes garantam direitos fez com que Siana iniciasse um movimento nas redes sociais. âPrecisava encontrar os parentes e mostrar que existimosâ. Após um post desabafo no Instagram publicado no Dia dos Povos IndÃgenas, em 2022, eles começaram a aparecer.
Uma das primeiras indÃgenas a entrar em contato com Siana após ler seu post foi a jovem Kanhu Raka, de 26 anos, da etnia Kamayurá. Por volta dos cinco anos, ela começou a sentir os primeiros sintomas da distrofia muscular progressiva, doença que enfraquece os movimentos até impossibilitar que a pessoa caminhe.
Nascida no Parque IndÃgena do Xingu, no Mato Grosso (MT), Kanhu defende, assim como Siana, a necessidade urgente de se discutir inclusão de pessoas com deficiência dentro e fora das aldeias. âMesmo na luta somos esquecidos. Nós precisamos gritar que estamos aqui, nós queremos ser ouvidos!â
Garantia de direitos
Ao perceber que não estava sozinha, Siana se juntou a Kanhu, e elas se aproximaram de outras pessoas com deficiência. Nascia assim o AcessibilindÃgena, um coletivo voltado à temática de pessoas indÃgenas com deficiência e neurodivergentes. Inicialmente, eram quatro colaboradores e seis indÃgenas cofundadores. Hoje, o coletivo é formado por Siana, Kanhu, Ynathari Pataxó, Renata Tupinambá, Levi Tapuia, Carla Potiguara e tem como colaboradora Milene Correia.
Em dois anos de coletivo, foram várias as reuniões, conferências, palestras, lives e debates que o grupo já participou. O AcessibilindÃgena já esteve com a ministra dos Povos IndÃgenas, Sônia Guajajara, e com o secretário de Saúde IndÃgena, Weibe Tapeba. Os encontros ocorreram em 2023, e, desde então, o grupo espera que as promessas feitas pelas autoridades, especialmente o mapeamento dos indÃgenas com deficiência no Brasil, sejam cumpridas. O #Colabora solicitou ao Ministério da Saúde e à Secretaria de Saúde IndÃgena (Sesai) informações detalhadas sobre o andamento das ações, mas não obteve respostas.
A maior adaptação é a informação. O que falta para os profissionais de saúde é ir até as aldeias, identificar esses indÃgenas e encaminhar para atendimento especializado
Além das polÃticas públicas, Siana defende que é preciso investir em conhecimento: âA maior adaptação é a informação. O que falta para os profissionais de saúde é ir até as aldeias, identificar esses indÃgenas e encaminhar para atendimento especializadoâ. Outra reivindicação é a capacitação de profissionais indÃgenas que atuem dentro dos territórios indÃgenas. âParente escuta parente. Como vão cuidar ou entender as pessoas com deficiência, se não tem acesso a essa informação?â
Em fevereiro último, o AcessibilindÃgena participou da elaboração de um relatório conjunto, produzido em parceria com outras 14 organizações do Brasil e de paÃses como Bangladesh, Quenia, Nepal e Ruanda. Entre as organizações que assinam o documento estão a IPWDGN, a Minority Rights Group International (MRGI, na sigla em inglês) e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Pessoa IndÃgena com Deficiência (CRDIPD), do Nepal.
No documento, as organizações detalham dificuldades comuns aos indÃgenas com deficiência nesses paÃses. A lista é grande, mas as principais lacunas são a falta de dados globais sobre essa população; violação de direitos fundiários e insegurança alimentar; maior incidência de violência sexual contra mulheres indÃgenas com deficiência.
O grupo elencou cinco áreas temáticas principais que precisam ser consideradas no enfrentamento ao estigma que vivem as pessoas indÃgenas com deficiência: âdesvantagem econômica e pobreza; violência e discriminação; participação polÃtica e tomada de decisões; acesso a cuidados de saúde e assistência social; alterações climáticas. Ao final do encontro, as entidades listaram recomendações, que foram encaminhadas ao relator especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre os Direitos dos Povos IndÃgenas, Francisco Cali Tzay.
Exclusão social
Diferentemente de Siana, que sempre contou com o apoio dos parentes, Kanhu não teve a mesma sorte. âQuando eu tinha por volta dos seis anos, meus pais perceberam que eu era diferente. Eu vivia doenteâ, lembra. Neta do cacique Kotok Kamayurá, ela rapidamente recebeu um diagnóstico dos anciãos da aldeia: estava amaldiçoada. âEntão eu deveria ficar isolada dos demais, porque o que eu tinha poderia ser contagiosoâ, lembra.
Kanhu passou anos isolada em uma maloca, sem conviver com os demais membros da aldeia. âAté que um dia, apareceu uma turista na terra indÃgena e meus pais pediram ajuda. Eles queriam entender o que acontecia comigo e essa moça indicou que fôssemos para BrasÃliaâ, recorda.
Meus pais não falavam português e ficávamos para lá e para cá, e os médicos não tinham paciência para entender o que meus pais tentavam explicar
Em 2006, Kanhu e a famÃlia saÃram do Parque Nacional do Xingu e se mudaram para a capital federal. “Meus pais não falavam português e ficávamos para lá e para cá, e os médicos não tinham paciência para entender o que meus pais tentavam explicarâ.
Kanhu conseguiu atendimento e, assim como Siana, recebe assistência na Rede Sarah de BrasÃlia. Ao ser diagnosticada com distrofia muscular de cintura, passou a receber o tratamento médico adequado e sua vida mudou: “A cadeira de rodas me deu oportunidades novas, pude ter uma vida melhor, fui pra escola, consegui ver um futuro pra mimâ.
Com o tratamento na cidade, Kanhu se distanciou do território. Os pais e os quatro irmãos sempre vão à aldeia, mas ela não. “Eu só posso me deslocar para lá de avião, o que fica muito caro. Como sou cadeirante, é difÃcil porque na aldeia não tem acessibilidade. Se na área urbana não tem, imagine em uma aldeia?”
Tem muito buraco na aldeia e eu não tenho como passar. Se fizessem uma calçada, só em uma parte e não na aldeia toda, já ajudaria. Também não tem banheiro para mim
Apesar das dificuldades, Kanhu acredita que algumas mudanças já fariam a diferença — adaptações que não mudariam o dia a dia da aldeia, mas que permitiriam que ela, por exemplo, conseguisse visitar o local com mais frequência. âTem muito buraco na aldeia e eu não tenho como passar. Se fizessem uma calçada, só em uma parte e não na aldeia toda, já ajudaria. Também não tem banheiro para mim”, lamenta.
Desde que saiu do Xingu, só voltou para lá uma única vez, em dezembro de 2019. âFiquei muito nervosa com esse retorno, porque sempre ouvi que minha deficiência era contagiosa, que era amaldiçoada. Tinha receio de ser tratada assim novamente. Mas foi ao contrário. Quando cheguei, fizeram uma festa e eu finalmente me senti aceita. Foi como se dissessem ânós erramos com vocêââ, relembra.
Recentemente, seu irmão caçula foi diagnosticado com a mesma doença, mas não enfrenta as mesmas dificuldades que Kanhu. Convidada a voltar à aldeia outras vezes, chegou a ouvir uma promessa do avô, de que construiriam uma estrutura mÃnima para recebê-la. âAté cogitei voltar mais vezes, mas, além de precisar estar em BrasÃlia por conta do tratamento, a viagem até a aldeia leva o dia inteiro e é muito cansativaâ.
Após concluir o Ensino Médio em BrasÃlia, Kanhu foi aprovada, em 2022, no curso de Ciência PolÃtica no vestibular indÃgena da Universidade de BrasÃlia (UnB). “Meu sonho é conseguir me formar e voltar para minha aldeiaâ. O sonho ainda não vingou, porque a estudante enfrenta dificuldades em permanecer na universidade. Ela chegou a ser desligada em abril deste ano (2024), por não conseguir frequentar as aulas regularmente e pelo fato de a faculdade não ter conseguido disponibilizar um monitor para ela. Mas já conseguiu a reintegração e retornou à s aulas.
Usuária de cadeira de rodas, Kanhu necessita de um monitor para ajudá-la na locomoção e para adaptar os trabalhos, que, por vezes, requerem muita escrita. Para chegar à UnB, Kanhu precisa pegar três ônibus e depois outras três conduções para voltar para casa â um transporte que nem sempre é acessÃvel para um cadeirante. âA cidade não é adaptada para pessoas com deficiência, indÃgenas ou não”, finaliza.
