Má formação, doenças raras e problemas neurológicos graves sem diagnóstico e sem encaminhamento para tratamento. Essa é a realidade de pelo menos 100 crianças e adolescentes indÃgenas de Itaituba, municÃpio da Bacia do Rio Tapajós, no Pará. As informações foram repassadas pelo médico Paulo César Basta, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Os dados são do Distrito Sanitário Especial IndÃgena (Dsei) Rio Tapajós, que atende, além de Itaituba, os municÃpios paraenses Aveiro, Altamira, Novo Progresso, Trairão, Jacareacanga e também Apiú (no Amazonas).
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Nesses municÃpios vivem um total de 14.884 indÃgenas, de 173 aldeias, pertencentes a nove etnias. A maior parcela de indÃgenas é da etnia Munduruku, que representa 81,69% dos indÃgenas atendidos pelo Dsei.
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Veja o que já enviamosPaulo Basta trabalha com saúde indÃgena há 25 anos e lidera um estudo para investigar o que está ocorrendo com a saúde dessa população, que estaria registrando um aumento no número de crianças com algum tipo de deficiência. A suspeita inicial já existe: contaminação por mercúrio, elemento quÃmico utilizado na atividade de garimpo.
Existem estudos que apontam que a concentração de mercúrio no cérebro desse feto é de cinco a sete vezes maior do que no corpo da mãe
âCostumamos dizer que o mercúrio tem uma predisposição, uma preferência pelo sistema nervoso central. O mercúrio se deposita no tecido nervoso e pode provocar lesões irreversÃveis que vão comprometer a parte motora, cognitiva e sensitivaâ, explica Paulo Basta.
à justamente no municÃpio de Itaituba, onde está sendo feita a pesquisa, que se concentra a maior área de exploração mineral no paÃs. Segundo o MapBiomas, Itaituba tem 71 mil hectares de área minerada, o que equivale a uma área maior do que a cidade de Salvador (BA).
Cerca de 92% de área garimpada no Brasil está na Amazônia Legal, e a maior parte ocorre dentro de Territórios IndÃgenas (TI). Em 2022, a atividade garimpeira dentro das TI cresceu 265% em relação a 2018. Pelo menos 62% das novas áreas de garimpo nesses territórios foram abertas também nesse intervalo de tempo, coincidindo com os anos de governo do então presidente Jair Bolsonaro. Os territórios Kayapó, Munduruku e Yanomami são os mais afetados.
O garimpo em terras indÃgenas ocorre avesso à legislação e ao estabelecido na Constituição Federal, que determina que a atividade só pode ser realizada em território indÃgena após prévia autorização do Congresso Nacional. Ainda assim, por meio de decreto legislativo e mediante consulta à s comunidades afetadas, que devem ter asseguradas a participação nesses resultados.
Com base na Constituição Federal e na convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Justiça Federal acatou, em janeiro último, à recomendação do Ministério Público Federal (MPF) e determinou que a Agência de Mineração Nacional (AMN) passe a indeferir todos os pedidos e processos para exploração de minério nas terras indÃgenas localizadas no municÃpio de Itaituba.
Mas as consequências já existem.
Um bebê afetado ainda no perÃodo pré-natal, pode ter lesões irreversÃveis no cérebro, que podem se manifestar como má formações e paralisia cerebral
O trabalho de Paulo Basta, em Itaituba, é feito junto ao Grupo de Pesquisa âAmbiente, Diversidade e Saúdeâ, da Fiocruz, com apoio da Secretaria de Saúde IndÃgena (Sesai). A equipe também reúne especialistas do departamento de neurologia da Universidade de São Paulo (USP) e especialistas de instituições como o Instituto Evandro Chagas (LEC); a Universidade do estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a universidade de Harvard.
As crianças e adolescentes encaminhados pelo Dsei Tapajós passaram por avaliação de neuropediatras da USP e por exames clÃnicos, além de coleta de amostras de cabelo — o cabelo é um ponto chave para compreender a contaminação. âAnalisamos amostras de cabelo como matriz biológica. Quando o mercúrio está no corpo, a tendência do organismo é tentar eliminar esse mercúrio. E isso ocorre a partir da saliva, urina, fezes, unhas e pelos cabelosâ, analisa Basta. Os dados estão sendo processados e devem estar disponÃveis até final deste ano.
Contaminação intrauterina
Em outra frente de trabalho, a equipe de Paulo Basta está acompanhando gestantes e recém-nascidos oriundos de dez aldeias Munduruku localizadas no Médio e Alto Tapajós (PA). O estudo integra o projeto Proteção dos Povos IndÃgenas e Tradicionais do Brasil, financiado pelo governo da Alemanha, por intermédio da rede WWF. O objetivo é verificar se a contaminação de garimpo na região chega naqueles que ainda não deram os primeiros passos. E podem nem vir a dar.
âà um estudo longitudinal, porque vamos acompanhar essa criança avaliando seus marcos de neurodesenvolvimento. Nossa hipótese é que a exposição pré-natal do mercúrio está comprometendo o neurodesenvolvimento da criançaâ, diz.
A hipótese é fundamentada em mais de uma década de trabalho que Basta se dedica a compreender os impactos provocados pela presença de garimpeiros nos territórios ancestrais e o uso indiscriminado de mercúrio.
Segundo o pesquisador, as gestantes estão no grupo mais vulnerável, porque transmitem a contaminação ao feto a partir da placenta e do cordão umbilical. âExistem estudos que apontam que a concentração de mercúrio no cérebro desse feto é de cinco a sete vezes maior do que no corpo da mãeâ, revela. Além da possibilidade de a mãe sofrer um aborto, como o sistema nervoso central ainda em desenvolvimento, o feto pode ter danos irreversÃveis, apresentando má formação ou anomalias congênitas.
âUm bebê afetado ainda no perÃodo pré-natal, pode ter lesões irreversÃveis no cérebro, que podem se manifestar como má formações e paralisia cerebralâ, explica o médico.
Os resultados dessa intoxicação são a demora no desenvolvimento da criança, que leva mais tempo para conseguir sentar, sustentar a cabeça, dar os primeiros passos e falar as primeiras palavras. E conforme vai crescendo, é uma criança com dificuldade de aprendizado. âA partir do momento que o déficit cognitivo está instalado, não há mais tratamento, não há medicamento para curar uma lesão neurológica, então é algo que vai se prolongar para toda a vidaâ.
O trabalho de pesquisa com as mulheres grávidas e recém-nascidos começou em outubro de 2023. Antes de iniciarem as atividades, a equipe da Fiocruz treinou 30 profissionais do Dsei Rio Tapajós, entre enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes indÃgenas de saúde. São esses os profissionais que formam o sistema de vigilância e monitoramento das gestantes cadastradas. A indÃgena grávida é convidada a participar do estudo e, caso aceite, passa por uma entrevista, onde são coletados exames de acordo com o protocolo de pré-natal e amostras de cabelo, para a análise do mercúrio.
A mulher cadastrada passa pelo menos três vezes pela equipe da Fiocruz, da gestação ao parto. Após o nascimento, a equipe segue acompanhando o bebê até que ele complete os dois anos de idade. Até o momento, 100 mulheres indÃgenas estão cadastradas no estudo e 26 crianças já nasceram e estão sendo acompanhadas. Essa pesquisa encerra em novembro de 2026, quando a equipe já terá resultados mais conclusivos.
Veneno à mesa
A equipe de Paulo Basta já esteve em outros momentos na região, e chegou a publicar um relatório, em 2020, sobre o impacto do mercúrio na Terra IndÃgena Sawré Muybu, do povo Munduruku, localizada nos municÃpios de Itaituba e Trairão (PA). A pesquisa se deu a partir da solicitação da Associação IndÃgena Pariri, que representa o povo Munduruku do médio rio Tapajós.
No estudo, realizado entre outubro e novembro de 2019, foram analisadas amostras de cabelo de 200 indÃgenas. Todas apresentaram contaminação por mercúrio. O principal meio de contaminação? Alimento.
Das 88 amostras de pescado consumido pelos indÃgenas, entre 17 espécies diferentes de peixes, todas tinham nÃveis elevados de mercúrio. Em uma das espécies, a piranha preta, o nÃvel de mercúrio era quatro vezes maior do que o permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a comercialização do pescado.
âIsso significa que os indÃgenas dessa região estão ingerindo quase 20 vezes mais mercúrio do que as doses recomendadas pela Agência de Proteção Ambiental Norte Americanaâ, conclui Basta. Das 57 crianças avaliadas, nove apresentaram problemas nos testes de neurodesenvolvimento.
Na Amazônia, a contaminação ocorre, principalmente, de duas maneiras: quando no processo de âlimpezaâ do ouro nas casas de queima, o garimpeiro inala e se contamina com os vapores de mercúrio. E quando o mercúrio é despejado nos rios, se transformando em metilmercúrio e impregnando na carne dos peixes, base da alimentação nos territórios indÃgenas e comunidades tradicionais.
No estudo feito pelo MapBiomas em 2022, pelo menos 186 mil hectares de área garimpada na Amazônia brasileira ficam a menos de meio quilômetro de algum curso dâágua.
O médico explica que a contaminação por mercúrio no corpo humano se instala de modo lento, progressivo e insidioso. Segundo ele, uma famÃlia que mora em aldeia indÃgena e que se alimenta de pescado contaminado cerca de duas vezes ao dia, todos os dias, está sendo envenenada aos poucos a cada refeição. O mercúrio vai ser absorvido pelo trato gastrointestinal e vai cair na corrente sanguÃnea, onde se distribui em diferentes órgãos do corpo humano.
âA medida que ele vai se depositando, e esses depósitos e concentrações de mercúrio vão aumentando, eles vão provocando lesões nos tecidos desses órgãos afetados e as lesões vão se instalando. A cada nova refeição, uma pequena e nova dosagem de veneno vai se depositando e, à medida que essas lesões vão progredindo, começam a aparecer os sintomasâ.
Apesar de várias evidências cientÃficas sobre os malefÃcios do mercúrio, o Brasil não tem um centro de referência e acolhimento para tratamento, e não possui uma rede de laboratórios dentro do Sistema Ãnico de Saúde capaz de fazer análises de rotina
O pesquisador explica que muitos sinais de contaminação acabam se confundindo com sintomas de outras doenças, o que dificulta o diagnóstico. âAdultos, por exemplo, podem ter dor de cabeça crônica, gosto metálico permanente na boca, ter diminuição no campo visual, zumbido no ouvido, insônia, irritabilidade. São sintomas genéricos se confundem com os de uma série de outras doenças e dificulta inclusive o entendimento da própria pessoa afetada de fazer esse vÃnculo ao mercúrio. E também confundem os agentes de saúde na identificação de que aqueles sintomas são sinais de intoxicaçãoâ, diz.
Conforme a contaminação vai progredindo, vão aparecendo problemas motores, como tremores das mãos e dos pés, além de diminuição da força, impedindo a realização de tarefas simples do dia a dia e que ocorriam antes da contaminação. âAtividades como subir uma escada, uma ladeira, a pessoa contaminada sente tontura, vertigem. à medida que os sintomas vão progredindo, as pessoas vão desenvolvendo um quadro semelhante a Doença de Parkinsonâ, diz, comparando os sintomas da contaminação ao da doença neurológica que afeta os movimentos.
Já em relação a capacidade cognitiva, o médico explica que a pessoa afetada pelo mercúrio começa a ter problemas de memória. âNão lembram mais os caminhos que faziam, o nome das pessoas, e, à s vezes, começa a ter dificuldade de articular um pensamento mais elaborado. E a medida que esse problema vai progredindo, a pessoa, se já for idosa, pode apresentar um quadro semelhante ao Alzheimer e à demênciaâ.
Herança do século XVI
A atividade do garimpo na Amazônia vem desde o século XVI, como indica um estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Embora o histórico de exploração tenha centenas de anos, foi na década de 70 que a atividade começou a ganhar força na região. Com a crise do petróleo, o preço do ouro aumentou e do dólar declinou â uma combinação perfeita para estimular ainda mais as atividades de garimpagem em solo amazônico na década seguinte.
Um projeto de Lei (PL 1011/2023) proposto pelo senador Randolfe Rodrigues (REDE/AP) busca instituir a PolÃtica Nacional de Prevenção da Exposição ao Mercúrio no paÃs. A última movimentação do processo foi em março deste ano.
Os dados das pesquisas e a pressão social para que medidas sejam tomadas foram a base para criação do Fórum Paraense de Combate aos Impactos da Contaminação Mercurial na Bacia do Tapajós. A iniciativa foi do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) em conjunto com a sociedade civil organizada. O fórum tem a participação de diferentes instituições de ensino, pesquisa, representantes da sociedade civil, do judiciário, de ONGs, representações de indÃgenas, sindicatos e grupos de defesa da Amazônia.
Um dos objetivos dos pesquisadores e lideranças indÃgenas é o funcionamento do Centro de Referência para as Patologias Decorrentes do Mercúrio (CREPAM), no Pará, que seria dedicado a acolher a demanda de pessoas afetadas na Bacia do Rio Tapajós. Mas o centro ainda não se tornou realidade.
âApesar de várias evidências cientÃficas sobre os malefÃcios do mercúrio, o Brasil não tem um centro de referência e acolhimento para tratamento, e não possui uma rede de laboratórios dentro do Sistema Ãnico de Saúde capaz de fazer análises de rotinaâ, dia Paulo Basta.
Em 2013 o Brasil foi um dos paÃses que assinaram a Convenção de Minamata, acordo internacional proposto pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A convenção recebeu esse nome porque Minamata é uma cidade no Japão, onde por mais de duas décadas uma empresa despejou mercúrio no principal rio que banha a cidade, contaminando gravemente o meio ambiente e a população.
O acordo visa eliminar o uso do mercúrio, evitando principalmente a contaminação ambiental e humana ocasionadas pelo uso do metal e estabelece uma série de regras e estratégias que devem ser cumpridas pelos paÃses. As nações signatárias se comprometem a desenvolver ações para identificar e proteger as populações em risco potencial de contaminação por mercúrio. No Brasil, A promulgação da Convenção se deu pela publicação do Decreto nº 9.470, de 14 de agosto de 2018.
Em 2024, o Governo Federal, a partir do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, lançou um documento, denominado âProjeto Avaliação inicial da Convenção de Minamata sobre mercúrioâ, contendo cerca de 200 páginas destinadas a fazer um panorama do uso do mercúrio no paÃs e orientando sobre um planejamento de curto, médio e longo prazo para a implementação da convenção no paÃs.
Para Basta, todo esse conjunto de medidas deveria virar polÃtica pública de proteção dos territórios, independente de qual governo estiver na ocasião. E deve ser considerada urgente e prioritária a interrupção imediata das atividades garimpeiras, assim como a completa desintrusão das terras indÃgenas afetadas pela mineração ilegal. âSe nada for feito, o mercúrio ainda vai ficar circulando por mais 100 anos na Amazôniaâ.
