Pode ter sido a compra da camiseta ‘Eu visto a camisa do meu bar’ que me lembrou do bolinho, do pernil e do caldinho de feijão do Bracarense; pode ter influência da releitura das crônicas de Aldir Blanc, falando dos quitutes do Bar do Momo; pode ser a lembrança do bolinho de fejioada do Aconchego ao ver Katia Barbosa no programa da TV: devem ser todas essas coisas porque ando com uma saudade louca dos petiscos de botequins. Naturalmente, bar é sinônimo de rua, de conversa na calçada e no balcão – e tudo isso faz muita falta. Mas essa conversa saborosa, para mim, pede a combinação perfeita de birita e petisco. Tanto que, ao ser perguntado dia desses, após um almoço caseiro, qual é a comida de restaurante que mais fazia falta, cravei que sentia mesmo saudade é dos petiscos dos botecos.
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Foi então que deu a vontade de buscar as fotos antigas e só para atiçar o paladar e deixar água na boca. Comecei pela Zona Norte, pelos petiscos do Bar da Portuguesa, em Ramos, onde DonzÃlia Gomes faz o melhor torresmo da cidade, que, infelizmente, como o jiló recheado só sai aos domingos. Mas o bar – a meio caminho das estações de Ramos e Olaria no ramal Saracuna da Central – também tem bolinha de aipim e carne seca, empadinhas e outras coisas mais. Ainda mais fácil de chegar é no bolinho de bacalhau da Adega D’Ouro, a poucos passos, da estação Vicente de Carvalho, do metrô, excelente entrada para os pratos fartos de bacalhau da casa. E também são só duas quadras da estação Maria da Graça, também do metrô, até o feio, o bolinho de carne do Bar da Amendoeira (Café e Bar Lisbela, no nome oficial), onde também reside uma carne seca da melhor qualidade. E, para não dizer que não sinto saudade de comida de restaurante, a Zona Norte é a terra do Cachambeer e sua costela no bafo – é um prato até para três, mas eu prefiro comer só a costela aperitivo.
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Torresmo do Bar da Portuguesa, bolinhos de bacalhau da Adega D’Ouro, bolinho feio (de carne) do Bar da Amendoeira, costela do Cachambeer: especialidades saborosas da Zona Norte (Fotos: Oscar Valporto e Divulgação)
Da Zona Norte para a Tijuca; nas palavras de Aldir Blanc, quem diz que mora na Tijuca “pode morar no Largo da Segunda-Feira, no Maracanã, no AndaraÃ, em Vila Isabel, em Aldeia Campista; digamos que, entre o Estácio e o Grajaú, tudo é Tijuca”.- explicou o mestre, nascido no Estácio, criado em Vila Isabel, e morador, por décadas, na Muda. Nessa área da cidade, moram também as tradicionais e imbatÃveis empadas do Salete – abertura para outras especialidades como os risotos – ali perto da estação Afonso Pena, do metrô. A partir da mesma estação, para os lados do Estácio, podemos encontrar o pastel de jiló com calabresa e outros quitutes do Bar Madrid. E, lá pelas bandas da Praça da Bandeira, a meio caminho das estações Afonso Pena e Estácio, da Linha 1, e São Cristóvão, moram os hoje lendários e copiadÃssimos bolinhos de feijoada do Aconchego Carioca, de Katia Barbosa, que também nos oferece camarão na moranga e risoto de rabada, entre outras especialidades. E, no caminho da Muda e da Usina, residem os bolinhos de arroz – com linguiça e queijo – do Bar do Momo, que ainda tem bolovo (bolinho com ovo e bacalhau) e farol de milha (carne, linguiça, queijo meia cura e ovo), Isso sem falar no bolinho de mortadela, do Bar da Frente, das sardinhas do Bode Cheiroso, do pastel de feijoada do Bar da Gema – a Tijuca é grande.
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Tremoços do Armazém do Senado, bolinhos de bacalhau da Adega Flor de Coimbra, petiscos de pernil do Opus, fritada da Casa Paladino; redutos da boa mesa no Centro (Fotos: Oscar Valporto)
O centro da cidade é lugar de trabalho e hora de almoço. Meu pai foi quem me guiou pelos melhores restaurantes da região, muitos precocemente falecidos: Ficha, Real Peixadas, A Lisboeta, Penafiel. Mas também tem lugares para só beber e beliscar, sem necessário compromisso para almoço. Vale para os legÃtimos bolinhos de bacalhau – em formato português, como um charuto – da Adega Flor de Coimbra na Lapa, que pode anteceder um prato tradicional; vale para o pernil aperitivo ou outros petiscos de pernil do Opus, na Gonçalves Dias, que pode (ou não) substituir o clássico sanduÃche; vale para as fritadas da Casa Paladino; ou mesmo para os tremoços, coisa mais simples e tão difÃcil de encontrar, do Armazém. Como vale também para o bolo de carne ou os pepinos do Bar Brasil, as salsichas do Bar Luiz, a linguiça da Casa Urich, os miúdos do Angu do Gomes…
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A caminho da Zona Sul, a primeira parada desse nostálgico passeio gastronômico precisa ser numa lanchonete: mas a Rotisseria SÃrio Libanesa, ali na antiga Galeria Condor do Largo do Machado, serve cerveja para escoltar seus quibes e esfirras, dos quais estou realmente morrendo de saudades. Como também estou sofrendo por todo o balcão da Adega Pérola, ali na Siqueira Campos, também perto da estação do metrô: deve ser o único lugar que é possÃvel contar favas antes de comê-las acompanhadas por um chope. E são vizinhos naquele balcão polvo, sardinha, arenque, ovas de peixe, queijos variados, alho frito, batata calabresa: uma alegria para qualquer paladar. Antes de chegar ao fim da jornada, devo fazer uma confissão: na hora que me fizeram aquela pergunta sobre o prato de restaurante, lembrei, primeiro, do bacalhau do Adegão e, pouco depois, do picadinho do Alvaru’s. Esqueci, portanto, de um prato que me tem feito muita falta: o steak tartar do Bar Lagoa, o melhor da cidade no meu modesto conceito gastronômico. Prato que pode, inclusive, ser saboreado como aperitivo, dividido por dois, acompanhado do chope que também está entre os melhores.
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Bolinho de camarão do Bracarense, favas da Adega Pérola, quibe e esfirra da Rotisseria SÃrio Libanesa e steak tartar do Bar Lagoa: alta gastronomia em clima de boteco (Fotos: Oscar Valporto)
Como todos que já me acompanharam por outros caminhadas, termino esta viagem inapelavelmente no Bracarense que fica a três quadras de onde moro aqui no Leblon – é praticamente um segundo lar. Os bolinhos de camarão e catupiry, com massa de aipim, já foram notÃcia até no New York Times, Os bolinhos de bacalhau têm seguidores fiéis. Eu me alinho ao caldinho de feijão e as porções de pernil e costela de porco – além de uma barriguinha de porco, recém-incorporada ao cardápio como já revelei em crônica recente, que faz o colesterol subir só de olhar. Na pandemia, estou aprendendo a cozinhar e preparar uns pratos. Mas nada substitui o prazer de petiscar uma dessas iguarias, tomando algumas, conversando com amigos e desconhecidos, e vendo a vida e a rua passarem devagar.
Gostaria de conhecer local endereço quais as iguarias que tem