Estamos traçando uma corrida contra o tempo para evitar a morte dos nossos corpos; a ideologia feminina sempre fez sentido para mim e agora faz parte da nossa história.
Por muitos anos, tivemos a narrativa das nossas histórias contadas por outras pessoas; nas escolas, aprendemos que o paÃs foi âdescobertoâ e colonizado de forma pacÃfica, que os habitantes, os âÃndiosâ eram pessoas não civilizadas, sem alma e com costumes bizarros.
Viu esse? Sônia Guajajara e Uruba Pataxó: lute como uma mulher indÃgena
Essa narrativa nunca contemplou a mim ao meu povo Sateré Mawé e nem aos outros povos que eu conheci; nossas narrativas vão muito além do conceito abordado nos livros, na TV, e nas histórias.
à fato que nossos povos foram dizimados e sofreram todo tipo de violência e violações, e nossos territórios e corpos foram invadidos.
Acompanhe seu colunista favorito direto no seu e-mail.
Veja o que já enviamosE é sobre esses corpos territórios femininos contemporâneos resistentes remanescentes que eu vim falar; corpos que me possibilitaram nascer, crescer, estudar e comunicar.
Digo isso com propriedade, de uma mulher que foi criada em um lar feminino de avó e mãe, lideranças na luta indÃgena e de gênero. Em uma associação de mulheres indÃgenas artesãs em Manaus, Amazonas. Zenilda Sateré Mawé e Regina Sateré Mawé, eu faço parte do legado.
São mulheres que até hoje inspiram força e resistência na luta pelos direitos dos nossos povos, por educação, saúde, território, como bem diz Sonia Guajajara em uma de suas falas: âA luta pela Mãe Terra é a mãe de todas as lutasâ. Eu não entendia na época, mas, ao pensar nessa narrativa e lembrar de como nós mulheres indÃgenas sempre estivemos em luta desde o nosso nascimento, e ver quantos parentes são assassinados por conta de território, quantas vidas são arrancadas do ventre da mãe terra pela ganancia do não indÃgena, isso nos obriga a lutar.
Hoje, quando pensamos em lideranças indÃgenas, os primeiros nomes que vem a nossa mente são nomes de mulheres; pelo menos na minha é assim. Sonia Guajajara, Célia Xakriabá, Alessandra Munduruku, Joenia Wapichana: mulheres que protagonizam a luta no movimento indÃgena que estão na linha de frente contra o genocÃdio dos nossos povos, que trazem o reflorestar mentes para não precisarmos reflorestar nossos territórios.
Que defendem nossos territórios como defendem suas vidas, porque isso que significa para nós, sinônimos de vida, mãe, corpo. E para que cada vez mais possamos ocupar todos os espaços acreditamos que só podemos de fato construir uma sociedade justa em que os direitos constitucionais dos povos indÃgenas se estivermos nos espaços de tomada de decisão que é no Congresso Nacional. Pois como diz Célia Xakriabá âantes de existir o Brasil da Coroa, ja existia o Brasil do Cocarâ.
Mulheres indÃgenas dos mais diversos povos do Brasil se levantaram em uma retomada coletiva, lançando o aldear a polÃtica com a bancada do cocar.
Nós não queremos mais ter que reflorestar os nossos territórios queimados, queremos reflorestar as mentes para um futuro contemporâneo indÃgena ancestral.
Por mais indÃgenas em todos os espaços, pois representatividade importa.
