Do ponto de vista geológico, duzentos anos não significam quase nada. Mas aos olhos humanos, é tempo suficiente para observar uma lagoa perder metade do seu espelho dâágua, receber 170 mil moradores em seu entorno, atrair dezenas de projetos mirabolantes â inclusive alguns que previam a sua extinção â e, mesmo assim, se manter soberana como um dos maiores Ãcones de beleza de uma cidade que oferece concorrentes estéticos aos montes.
Em âLagoa Rodrigo de Freitas â uma discussão centenáriaâ (Cidade Viva Editora), recém-saÃdo das gráficas, Victor Coelho, um dos mais respeitados especialistas da área ambiental fluminense, faz um bem-acabado diário da lagoa-sÃmbolo do Rio de Janeiro. Derruba mitos ao mostrar, por exemplo, que a lagoa nunca foi balneável, embora esteja apta à s atividades de lazer, e surpreende ao detalhar que o único consenso entre especialistas é a necessidade de ampliar a entrada de água do mar.
â A principal fonte de poluição da Lagoa são as galerias de águas pluviais, que recebem esgotos, fezes de animais após as chuvas. Ela não está classificada como apta para banho, e esse nunca foi um hábito da população. Nem mesmo no passado. A Lagoa é um ambiente lodoso e pantanoso, pouco atrativo para o contato direto â diz o autor, que enxerga, entretanto, avanços na qualidade ambiental da Rodrigo de Freitas: â Com a construção de galerias e elevatórias pela Cedae, a partir de 2006, a situação melhorou. Mas ainda vai demorar muito para se tratar todas as águas pluviais e o esgoto das favelas. O uso é recomendado apenas para esportes como remo, vela, há quase 40 anos.
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Veja o que já enviamos72 episódios de mortandade de peixes
Com 240 páginas, o livro âLagoa Rodrigo de Freitas â uma discussão centenáriaâ está dividido em quatro capÃtulos. O primeiro fala da história do corpo hÃdrico da Zona Sul da cidade; o segundo faz menção a todos os grandes projetos e estudos com o objetivo de melhorar sua qualidade ambiental; monitoramento é o tema da terceira seção; o quarto discute os modelos mais recentes apontados como importantes para ajudar a Lagoa a se livrar da frequente mortandade de peixes â foram ao menos 72 registradas pela imprensa em 80 anos (de 1935 a 2015), revela o autor.
O dado deixa claro que há algum descompasso ocorrendo na Lagoa cercada por bairros nobres como Leblon, Ipanema, Gávea e Humaitá. Victor Coelho, funcionário de carreira da antiga Feema (foram 28 anos dedicados ao órgão ambiental do estado), não tem dúvidas: o ecossistema padece da baixa troca de água com o mar aberto do Leblon, um prato cheio para a proliferação de fitoplâncton ou de plantas aquáticas (a chamada eutrofização), um processo bastante natural em lagoas, mas que na Rodrigo de Freitas tem sido intensificado, ano após ano.
Dessa eutrofização exagerada decorrem o mau cheiro, a baixa de oxigênio e a mortandade de peixes. Ações que permitam a entrada da água salgada do mar são fundamentais, mas todos os projetos estão parados, assinala o livro. O mais recente, chamado de âdutos afogadosâ e referendado pela Coppe/UFRJ, consiste na construção de tubulões submersos ligando a Lagoa ao mar e chegou a ter Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima) divulgados há sete anos. Com a derrocada da EBX, de Eike Batista, que vinha sendo o mecenas da Rodrigo de Freitas, num passado recente, o programa parou.
â Não é falta de dinheiro, não. à falta de vontade polÃtica â sentencia Victor. â Na âhora Hâ é sempre mais fácil fazer um novo estudo do que começar a fazer as obras. Vão postergando. O que ocorre hoje é na Lagoa é o que os especialistas chamam de estratificação: a camada do fundo é anóxica, sem oxigênio; e a camada da superfÃcie tem muito oxigênio dissolvido. Então, qualquer vento forte que promova o revolvimento do fundo, consome o oxigênio das camadas superiores, além de liberar nitrogênio e gás sulfÃdrico (H2S). Toda mudança brusca é ruim. A obra dos âdutos afogadosâ tem o objetivo de manter sempre uma desestratificação, diminuindo as chances desses episódios de mortandade â explica.
âLagoa Rodrigo de Freitas â uma discussão centenáriaâ tem o mérito de explicar alguns termos técnicos, como âeutrofizaçãoâ, aos leitores menos familiarizados com a engenharia ambiental e a biologia. O autor se esforça para deixar bem claro o significado de alguns conceitos importantes: vai e volta no assunto algumas vezes. à recheado de gráficos e tem uma diagramação que facilita a leitura. Mas em determinados momentos, pode ser menos palatável a quem não é especialista em meio ambiente. O autor concorda:
â Tem um lado que é didático, que explica termos da engenharia e biologia. E tem um lado que vai mais para o técnico. Procurei equilibrar. Pode ser que tenham ficado algumas lacunas que as pessoas acabam não entendendo.
Nada que tire a importância e os méritos do livro. A Lagoa não era objeto de uma publicação especÃfica desde 2009, quando Augusto Ivan e Eliane Canedo lançaram âLagoa Rodrigo de Freitas: evolução urbana e paisagemâ. Este é o terceiro livro de Victor sobre corpos hÃdricos fluminenses: escreveu âBaÃa de Guanabara: uma história de agressão ambientalâ (2007) e âParaÃba do Sul: um rio estratégicoâ (2012), ambos pela Casa da Palavra.
â Espero ainda fazer um sobre a BaÃa de Sepetiba â diz o engenheiro, com energia de sobra aos 79 anos.
E as esperanças para uma Lagoa melhor, a quantas anda, Victor?
â Com a conjuntura do Estado do Rio, veja que não estão nem pagando nem meu salário de aposentado, é difÃcil fazer algum tipo de investimento. Qual é a prioridade disso? Eu tenho a impressão de que com essa crise, e vamos demorar a sair dela pelo menos cinco anos, é difÃcil de se fazer alguma coisa na Lagoa a curto e médio prazos.

Até aonde se pode afirmar em parte ao contrário, não se pode ser absolutamente preciso. O fato é que uma das primeiras das grandes mortandades de peixes da lagoa foi entre 1949-1951. Desde então houveram muitas, mas esta primeira foi fatal! Está bem claro pelas fotos da revista O Cruzeiro onde se mostravam ao menos um peixe dos grandes, um mero talvez, erguido nos braços e mãos de um jovem musculoso, próximo ao Clube dos Caiçaras, numa época em que ainda havia uma faixa de areia entre a rua e o espelho d’água. Essa pode ser uma indicação de que as pessoas das redondezas ainda se banhassem então aà no século passado. Muito tempo depois um amigo sueco me explicou que em seu paÃs algo semelhante acontecia em determinado lugar, até que resolveram colocar grandes tubulações facilitando a troca de águas do interior da lagoa ao trecho de lagoa local, semelhante ao que aà existe no Leblon, defronte aonde hoje existe o outro canal; sim porque há um canal lá no princÃpio perto da pedra nas imediações da Avenida Niemeyer, canal este que somente deita águas podres vindas do Jockey Club e da HÃpica.
Olá Geraldo, obrigado por sua contribuição. A facilitação das trocas de água com o mar é sem dúvida um caminho para melhorar a qualidade ambiental da Lagoa!
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