Divulgado neste Dia Mundial da Ãgua (22/03), novo estudo da Fundação SOS Mata Atlântica aponta que, no bioma onde vive mais de 70% da população brasileira, apenas 8% das mais de mil análises realizadas em 2023 indicam água de boa qualidade. E 12,1% das amostras indicaram qualidade de água ruim e 2,9% qualidade péssima: em 15% dos pontos analisados na Mata Atlântica, portanto, a água não é apropriada para seus usos múltiplos â abastecimento humano, consumo dos animais, utilização na agricultura, indústria, lazer e esportes.
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Os dados são da edição de 2024 da pesquisa âO Retrato da Qualidade da Ãgua nas Bacias Hidrográficas da Mata Atlânticaâ, realizada pelo programa Observando os Rios, da SOS Mata Atlântica. E os resultados nem são tão ruins quanto parecem. âPercebemos uma tendência de melhora, mas o quadro de alerta em relação aos rios da Mata Atlântica persiste, revelando a fragilidade da condição ambiental de parte significativa dos corpos dâágua monitorados”, afirma o geógrafo Gustavo Veronesi, coordenador do programa Observando os Rios.
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A tendência de melhora está no aumento de 6,9% para 8% nas análises com qualidade de água boa e da queda de 16,3% para 12,1% na porcentagem de qualidade ruim na comparação de 2023 com 2022. As amostras classificadas na categoria regular representam 77% do total, um aumento de dois pontos percentuais. “A qualidade regular da água obtida em 77% dos pontos demanda atenção especial dos gestores públicos e da sociedade, especialmente neste momento de emergência climáticaâ, acrescentou Veronesi. A avaliação geral indica uma situação ainda longe do ideal, com menos de 10% dos pontos analisados com qualidade boa e, como nos últimos anos, nenhum com qualidade ótima.
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Veja o que já enviamosDe acordo com a SOS Mata Atlântica, o objetivo do relatório é oferecer o retrato da qualidade da água em bacias hidrográficas do bioma por meio de dados do Ãndice de Qualidade da Ãgua (IQA), levantados por uma rede de cerca de 2.700 voluntários do programa Observando os Rios. Com base em coletas mensais entre janeiro e dezembro de 2023, foram realizadas 1.101 análises em 174 pontos de 129 rios e corpos d’água em 80 municÃpios de 16 estados da Mata Atlântica.
O estudo aponta que os resultados dos 126 pontos de análise comparáveis, entre 2022 e 2023, indicaram estabilidade da média da qualidade da água: 10 pontos com qualidade boa (em 2022, eram nove); 100 com qualidade regular (94, em 2022); 13, ruim (20, no ano anterior) e três, péssima, assim como em 2022. “Mais uma vez, a pior classificação ocorreu no mesmo local e na mesma quantidade que no ano anterior, no rio Pinheiros, em São Paulo”, frisa o documento.
O relatório destaca boas notÃcias para o Rio Mamanguape, na ParaÃba, e o Ribeirão do Curral, em Ilhabela, no estado de São Paulo, que saÃram de condição regular para boa. A média de qualidade do rio Tietê, na divisa entre os municÃpios de São Paulo e Guarulhos, passou de ruim para regular, “possÃvel consequência de obras de coleta e tratamento de esgotos recentemente finalizadas”. Na Região Sul, os rios Brás, em Santa Catarina, e Feitoria e Noque, Rio Grande do Sul, também foram de qualidade de água em média ruim para regular. Três pontos de água péssima estão localizados no Rio Pinheiros, na capital paulista, um no Rio Tietê, em Barueri (SP), e outro em Ribeirão dos Meninos, em São Caetano do Sul (SP).
De acordo com a SOS Mata Atlântica, as precárias condições de saneamento básico no paÃs e o crescimento desordenado das grandes e médias cidades são fatores importantes para os resultados que indicam a baixa qualidade da água. “Enquanto a ONU reforça a importância da água como um bem comum global e destaca compromissos para polÃticas integradas até 2030, o Brasil enfrenta a necessidade urgente de aprimorar suas polÃticas públicas e práticas para garantir um futuro sustentável e seguro para todas as pessoasâ, afirmou Malu Ribeiro, diretora de polÃticas públicas da SOS Mata Atlântica, destacando que a integração de polÃticas públicas e agendas relacionadas à água, clima, meio ambiente e saneamento no Brasil permanece como um desafio. âA participação ativa da sociedade civil e a atuação em comitês de bacias hidrográficas são fundamentais para promover a qualidade da água e a gestão sustentável dos recursos hÃdricos”, adicionou.
Esgoto, água e desperdÃcio
Dados divulgados pelo Instituto Trata Brasil, na quarta-feira (20/03), revelaram que a falta de acesso à água potável ainda impacta quase 32 milhões de pessoas no Brasil e cerca de 90 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta de esgoto. O estudo – Ranking do Saneamento 2024, com o foco nos 100 municÃpios mais populosos do paÃs – foi do realizado a partir dos indicadores do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), ano-base de 2022, publicado pelo Ministério das Cidades.
Os dados do SNIS apontam que o paÃs ainda tem grandes dificuldades com a coleta e com o tratamento de esgoto. Na comparação entre os dados do SNIS nos anos-base 2021 e 2022, a coleta de esgoto subiu de 55,8% para 56% – aumento de 0,2 pontos percentuais – e o tratamento foi de 51,2% para 52,2%, aumento de 1 ponto percentual. De acordo com o Trata Brasil, dados mais recentes indicam que mais de 5,2 mil piscinas olÃmpicas de esgoto sem tratamento são despejadas na natureza diariamente.
Sobre o acesso à água potável, a avaliação dos 100 maiores municÃpios brasileiros feita pelo Trata Brasil aponta que 22 cidades têm que 100% de atendimento total de água e outros 18 registram valores de atendimento superiores a 99%. O indicador médio de atendimento dos 100 maiores municÃpios é 94,92% e mostra um pequeno progresso frente ao Ãndice de 94,19% do ano-base 2021. A média brasileira geral, de acordo com os dados do SNIS (ano-base 2022), foi de 84,92%.
O ranking do Trata Brasil, feito em parceria com a GO Associados, contém ainda um Ãndice de perdas na distribuição de água, que busca estabelecer uma relação entre a água produzida e a água efetivamente consumida nas residências – quanto menor for a porcentagem, menor parte da água produzida é perdida na distribuição. O indicador médio dos 100 municÃpios mais populosos do paÃs foi de em 35,04% no SNIS (ano-base 2022), o que representa uma leve melhora em relação aos 36,51% de 2021. Este valor é inferior à média nacional divulgada no SNIS (ano-base 2022, que foi de 37,78%. Dos 100 municÃpios rankeados , apenas 14 possuem nÃveis de perdas na distribuição menores que 25% (valores considerados como adequados). Os dados mostram ainda que 1/5 da amostra (20 municÃpios) tem perdas na distribuição superiores a 50%.
